Trabalhos de Prevenção, Discriminação, Estigma e Direitos Humanos com Comunidades Espéciais GLBT – Favela da Maré, Rio de Janeiro, Brasil, 2008

por: Vagner de Almeida 2008

A Maré Não Está Para Peixes


Sábado, dia 23 de março de 2008, o taxi para alguns metros depois da passarela 9, às 13:10 na Avenida Brasil na frente do supermercado Vienense, na entrada da Favela Nova Holanda.

Carla e Alex me aguardam para podermos seguir para dentro da favela. Nos apresentamos e ambos entram no taxi e através da direção que eles nos dão começamos uma trajetória em um outro mundo, universo este que só mesmo quem vive nele pode entender ou falar sobre.


Quanto a mim eu só posso me expressar através do que vi, senti e convivi por algumas horas. É muito difícil para um “estranjeiro”*, neste caso eu, poder falar a verdade daquele universo.

Só posso me expressar através das fotos dos meus olhos e o regitros da minha  memoria.

Filmar ou fotografar naquele momento é muito arriscado, pois tudo necessita de ser firmado antes com os poderes que ali se instalaram.

O Complexo da Maré realmente é um dos maiores que já vi na minha vida ao vivo, a olho nu, presente com o meu corpo e alma.

Os espaços, as vielas, as ruas principais, as casa na maioria delas todas de andares duplos ou triplos erguem-se lado a lado, parede e meia*.

Meninos armados nas esquina ou lugares estratégicos, dominam o espaço que lhes são reservados na favela da Maré ou no completo da Maré.

O taxi percorre uma das longas ruas principais, cortando várias encruzilhads, quebra molaS, campos de futebol, locais abarrotados de pessoas correndo atrás de uma bola, lojinhas de todos os gêneros, bares em filas vendendo comida, churrasquinhos, tapioca, cuscuz, amendoim torrado e pipoca com torresmo e a tradicional cerveja gelada de todas as marcas e pingas, quitandas, cabelereiros chiques e outros nem tanto, fliperamas, video locadoras, confecções, igrejas de todas as linhs religiosas, terreiros de todas as nações, oficinas de carros, pracinhas, bancas de jornais e uma população incontável. Um outro país? – Não! É só mais um pedacinho do nosso grande Brasil.


Há duas quadras da escola de samba, uma é a antiga quadra aonde o seminário ocorreu com total sucesso até a hora da minha saida às 18:30. A outra quadra nova do "Mata Gato de Bonsuceso" no mesmo dia haveria o show dos “Racionais”* e a comunidade fervilhava a procura de convites para comprar.

Neste percurso todo não consegui ver uma escola pública, porém elas existem naquele aglomerado de construções irregulares. Impressionate a arquitetura, as pessoas, o bem e o chamado mau como se misturam harmoniosamente ou convivem como podem no mesmo espaço.

Interessante lembrar que é um sábado no começo da tarde e as pessoas caminham com sacolas de compras na mão, circulam de bicicletas carregando as mais variadas coisas possíveis, carros simples e de luxo trafegam em uma calma quase silenciosa, aparentemente naquelas ruas e ruelas, motocicletas populares e sofisticadas, carroças puxadas a burros ou  gente, no meio de tantas diversidades sociais os gay e as trans também transitam entre as ruelas e avenidas da Nova Holanda.

Crianças brancas, pardas e negras brincam, soltam pipas, jogam futebol na maioria das vezes sem camisas e de pés no chão. Verdadeiros herois no meio de variadas batalhas sociais.E como diziam o poeta maior “Atrás de uma bola, há sempre uma crainça”

Jovens, não mais tão crianças empunha suas armas de fogo em esquinas estratégicas de proteção do local. Tudo muito surreal para os olhos de quem não vive naquele cotidiano e muito natural ou quase normal para as pessoas que são obrigadas a conviver com o poder paralelo dessas comunidades espéciais.

Uma arquitetura moldada em paredões paralelos, altos como muralhas de fortalezas medievais.

No final da rua aonde eu estava dentro do taxi, rodeado de jovens armados, podia observar os muros brancos do Batalhão da Polícia Militar da área da Maré fazendo fronteira com aquele outro mundo de um poder forte e paralelo na sociedade brasileira.

Dobramos a direita e depois a esquerda e chegamos na frente de uma beco asfaltado que nos conduziria até a quadra do "Gato de Bonsucesso".

O taxista pergunta a Carla e ao Alex se seria seguro ele sair dali sozinho e eles responderam que ambos os poderes estavam sabendo da chegada de convidados para o seminário ali na Nova Holanda e não haveria invansão.  Nem do Caverão* e nem do Comando Paralelo, oqual não necessito citar, até mesmo por respeito e cuidados com os nossos anfitriões que nos convidaram e conduziram naquele universo de muitos becos, entradas e pouquíssimas saídas.

Tudo é muito tenso, homens icognitos observam a nossa chegada ali como estranjeiros*, forasteiros, olheiros* e nos olham, observam, falam entre eles, cochicham, manipulam idéias, as quais desconhecemos os códigos e seus conteúdos.

Interessante ressaltar que ali podemos ser vistos como inimigos mortais para o comando presente no momento. Somos estranjeiros de um outro mundo não tão distante dali. Alguns minutos em linha reta estamos em outra parte da cidade, fazendo fronteiras com tantas outras favelas do Rio de Janeiro. Em cada uma delas somos pessoas investigadas por eles. Desconhecidos, principalmente homens é sensato sempre ter um endereço certo para entrar na favela, seja ela qual for. Seu passe, seu passaporte de entrada e saída é quem você irá visitar na favela.

Observei que tudo ali, naquele local, todas as pessoas parecem que estão se resguardando para o pior, para momentos de botes, de luta, de guerra, de invasão e de perdas.

O medo paira no ar, mas as pessoas se acostumaram a não reagir ao medo, mas sim silencia-lo por imposição da força e dos poderes paralelos tanto de fora, como de dentro.

 (basta observar a pseudo pacífica  novela da Globo “Duas Caras”, Juvenal Antena comandando a Portelinha, sessões de quem fica ou sai da comunidade, lei ditatorial de pessoa/as com poder paralelo. O folhetim fantasioso da GLOBO não é mentira na realidade de qualquer comunidade especial do Rio de Janeiro e Brasil. Basta refazer o roteiro e começar a rodar a novela com os verdadeiros ângulos de filmes documentários reais e nao de ficções)

Continuando a jornada a dentro, caminhamos no meio da rua calçada com paralelepipedos até a uma entrada com uma porta estreita da quadra de samba, aonde o seminário promovido pelo Conexão G e a Fase aconteceria.

Dezenas de jovens e crianças rodeava-nos com uma certa interrogação no olhar e no movimento rápido de sairem correndo, saltitando sorrateiramente, como se fossem avisar a alguém o que estava acontecendo ali.

Existe também a possibilidade de se analisar como parânoia nossa, por estarmos nos sentindo tão vulneráveis e ao mesmo tempo protegidos naquele local desconhecido por tantos de nós.

A sensação desse desconforto, era geral em todos os convidados do evento que não moram ali. Desconforto, neste sentido signica receio, medo, estranhesa. A cidade do Rio de Janeiro com os seus políticos nos contruiu esse medo do espaço em que vivemos.

 

A TV Cultura estava fazendo a sua linha jornalística, entrevistando os convidados e nos perguntado o que achavamos daquele evento dentro daquele local, ali na Favela da Nova Holanda.

Creio que a resposta tenha sido unânime em responder que aquele evento e seus organizadores eram herois em um campo de guerra e diversidade sexual, de gênero e de luta. Naquele momento uma verdadeira Revolução Francesa.

Corajosos, inovadores e acima de tudo seres humanos que lutam por um espaço, mesmo que seja no meio de tantas intolerâncias dos poderes paralelos atuais.

 

Pessoas na mesa de apresentação se expressaram, passaram suas falas de protestos e de prevenção com técnica e sabedoria.

A maioria dos jovens presentes eram dali mesmo, porém muitos outros jovens vieram de outras favelas, jovens esses engajados em ONGs ou outro tipo de atividade social.

 

 

Parabéns ao grupo e a equipe que organizaram uma parede com um memorial das travetis assassinadas e que nasceram e morrem na Favela da Maré

Não termina-se um texto, quando a história contínua percorrendo as ruleas da vida. Há muito o que se contar nesta longa e indefesa luta de resistência em um campo aonde a força e o poder paralelo comandam as vidas de tantos cidadãos brasileiros.

Resumos do encontro na Maré e sua programação.

 


SEMINÁRIO


O Grupo Conexão G, formado por militantes gays moradores do complexo da Maré, convida instituições e ativistas dos movimentos sociais de favelas a participarem e apoiarem a campanha intitulada: A Maré contra a homofobia dst/aids!! Diversidade sexual e Paz nas Favelas.


 A proposta de ação foi elaborada pelo grupo Conexão G e foi desenvolvida no âmbito do projeto “Direitos-Derechos” da FASE que visa sensibilizar e orientar ações de exigibilidade de direitos entre jovens lideranças comunitárias.


 O objetivo da campanha, que acontecerá no dia 23 de fevereiro de 2008, com atividades durante todo o dia, é promover uma manifestação pública em defesa do direito à liberdade de orientação e expressão sexual como garantia dos Direitos Humanos, com tudo queremos junto com essa manifestação promover um dia na luta contra aids, pois sabemos que na Maré vem aumentando cada vez mais o numero de pessoas infectadas pelo vírus do HIV.


 

O grupo quer chamar a atenção para a necessidade de incluir a luta contra DST/aids e homofobia, na agenda política dos movimentos de favelas como meio de combater a exclusão de líderes GLBTTs e de pessoas que são soropositivas nesses espaços. Através da luta contra a homofobia é possível conscientizar a “comunidade” acerca dos benefícios do respeito à diversidade como dimensão importante na luta pela paz e justiça, valorizando o enfrentamento pacífico das práticas discriminatórias que orientam as ações violentas, como por exemplo, a violência policial, a violência sexual, o racismo e a violência de pessoas que são soro positivo.  


Acreditamos que enfrentar as questões sobre diversidade sexual como Direitos Humanos e DST/aids em comunidade de baixa renda é fato novo, necessário e ousado. A oportunidade dos homossexuais tornarem-se lideranças na comunidade abre a possibilidade dos mesmos serem respeitados no local em que moram, sendo vistos como profissionais que atuam pela melhoria da comunidade.

Gilmar Santos – Conexão G
Mauro Lima – Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro.
Projeto Derechos Direitos  Juventude- Fase.

 

Como parte do evento o filme documentário foi apresentando e debatido com  a plateia, trazendo em pauta direito do cidadão GLBT da Favela da Maré e em todas as outras comunidaes espécias do Brasil.
 

 

VÍDEO – Documentário “Basta Um Dia”

Vagner Almeida – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS - ABIA
 

 

 

 


SEMINÁRIO

Violência, Direitos Humanos e favela
Coordenação: Eduardo Alves – Conexão G
Cláudio Nascimento – Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos
Heliana Hemetero – Grupo Arco Íris
Marcelo Freixo – Deputado Estadual
Vagner Almeida – ABIA-Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS
Pantera – moradora da Maré


Saúde e prevenção as DST / HIV-AIDS
Coordenação: Bruno Santos – Conexão G
Fábio Souza  – Saber Viver
Márcio Villard – Grupo Pela Vidda
Claúdia Fonseca – Secretaria Estadual de Saúde- Assessoria de  DST-AIDS
Roberta Mercadante – Centro de Promoção da Saúde – CEDAPS
Gilmar Santos – Conexão G


CONFRATERNIZAÇÃO

Bloco Se Benze Que Dá
Inauguração do mural de memória gay da Maré
Shows de Drag Queens e convidados
Discoteca


GILMAR SANTOS
fundador do grupo conexão g.
um grupo que trabalha na questão da liberdade de orientação sexual.


Galeria de fotos


 


 

Glossário

Estranjeiro – pessoa não de outro pais, mas de realidades diferentes e tão proxímas umas das outras.

Olheiros – pessoas que observam a movimentação do tráfico dentro e fora dessas comunidades espéciais

Parede e meia – casas coladas uma nas outras.

Racionais – conjuto famoso de Funk and Hip Hop

Caverão – carro brindado da polícia pra entrar em áreas de altissimo risco bélico

 


 

 

 

para maiores informações enviar e-mail:
vagner.de.almeida@gmail.com