Empoderamento Erótico e Cidadania
Sexual para Homens que Fazem Sexo
com Homens e Tribos Afins


por: Richard Parker

Para trabalhar o tema HIV/AIDS com o público homossexual, é necessário, por um lado, respeitar a diversidade erótica que existe dentro dessa população e, por outro, a cidadania. É preciso haver também um respeito pelos direitos e uma luta constante contra a violência, a discriminação e o estigma que cercam esse campo. Ao longo desses dez anos de trabalho da ABIA, esses dois pólos, o erótico e a cidadania, têm sido uma constante no nosso dia-a-dia.

Podemos dividir nossa trajetória em duas etapas. A primeira etapa, compreendida entre os anos de 1993 até 1998, mais ou menos, foi marcada pelo Projeto Homossexualidades ou Projeto HSH – Homens que Fazem Sexo com Homens. A segunda etapa, iniciada em 1999, abrange o Projeto Juventude e Diversidade Sexual, as vezes denominado de HSH Jovem, que tem vários sub-projetos sobre a prostituição masculina, a homossexualidade dentro do contexto das religiões afro-brasileiras, entre outros.

A primeira etapa desse trabalho, a partir de 1993, foi desenvolvida em parceria com várias outras organizações – quase todas do movimento homossexual, como os grupos Pela Vidda do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Instituto de Medicina Social, os grupos Atobá, Arco-Íris e 28 de junho – e o apoio financeiro de diversas fontes. A existência de diferentes linhas de financiamento, inclusive, impediu que nos tornássemos dependentes de uma única agência, nos permitindo ter mais liberdade para desenvolver trabalhos para o público homossexual.O Projeto HSH teve dois pontos de partida. O primeiro foi o que em inglês chamamos de the cap gap – pesquisas comportamentais, realizadas no início dos anos noventa entre vários grupos, que mostravam que, apesar do alto nível de conhecimento sobre o HIV/AIDS, as práticas de risco ainda persistiam. O segundo ponto de partida foi a distinção feita entre os conceitos de identidade sexual e comportamento e prática sexual, uma vez que no Brasil as práticas homossexuais não significam necessariamente a construção de uma identidade gay.

Um Produto Cultural
A idéia de que a sexualidade é social e culturalmente construída foi muito importante para o desenvolvimento desse trabalho. É ela que nos permite pensar que a sexualidade também pode ser desconstruída e reconstruída dentro do contexto de programas de prevenção e de um trabalho político.

O desenho do Projeto HSH foi construído com base em uma dinâmica de intervenção, na tentativa de alcançar as pessoas onde elas estão e de iniciar um diálogo. Tinha, também, um componente de pesquisa muito importante, a fim de mapear onde o trabalho deveria ser realizado, e a construção do que chamávamos de espaços seguros, para onde as pessoas podiam ir a fim de receber apoio social e psicológico. Essas atividades incluíam também a pesquisa formativa; um trabalho de produção de material educativo; a colaboração com estabelecimentos comerciais, tais como bares, saunas etc.; a colaboração com a rede de saúde pública no Rio de Janeiro e em São Paulo; a realização de uma série de seminários; a distribuição de preservativos; entre outras.

Nos dois primeiros anos de trabalho, tínhamos uma ênfase muito forte na erotização do sexo seguro, a fim de contra-argumentar a idéia de que ele seria uma forma de impedir o prazer. Havia, também, a intenção de alcançar públicos diferenciados, como o de homens que não se identificam como homossexuais. Criamos, baseados em um mapeamento feito no Rio de Janeiro e em São Paulo, guias gays, no intuito de apoiar a construção de comunidades homossexuais mais fortes e unidas nessas cidades.

Convite ao Diálogo
Ao longo dos anos, o trabalho foi caminhando para um compromisso com uma identificação com o ativismo e com a política. Adotamos, por exemplo, o uso de alguns dos símbolos internacionais da luta contra a AIDS. O famoso símbolo do movimento gay mundial foi aparecendo cada vez mais e passamos a utilizar os participantes dos nossos projetos como modelos e concebedores do material que produzíamos.

O objetivo desses materiais era fazer um convite ao diálogo, possibilitando um engaja-mento político mais amplo. Eles eram usados muito mais como um cartão de visita do que como uma peça educativa, no seu sentido tradicional. Esse cartão de visita foi o ponto de partida para o trabalho de intervenção realizado em diversos locais e, principalmente, na sede da ABIA. Naquela primeira etapa, até 1997, a produção do projeto foi bastante ampla e o mais notável é que cobria, por um lado, um grande leque de produtos mais acadêmicos, e produtos muito mais populares, por outro. Os métodos de avaliação, naquele primeiro momento, foram três: pesquisas transversais consecutivas, que foram realizadas em 90, 93 e 95 e depois não foram continuadas por falta de verba; o monitoramento etnográfico contínuo, realizado entre 1990 e 1997; e os grupos focais com diversas populações envolvidas no projeto, a fi m de avaliar a penetração deste dentro da comunidade, independentemente da participação que o indivíduo teria ou não dentro do projeto. Os resultados mostraram que houve um aumento considerável no uso de preservativo e uma mudança de atitude frente à AIDS, com uma redução do estigma na própria comunidade homossexual e uma conscientização em relação aos direitos.

Segunda Etapa
A segunda etapa desse trabalho, realizado ao longo dos últimos anos, basicamente de 2000 até o presente, é chamado de Juventude e Diversidade Sexual. Ele tem como objetivo priorizar um trabalho para os jovens, destacando a vulnerabilidade em potencial dos jovens homossexuais. A violência estrutural que existe na sociedade brasileira faz com que a epidemia atinja cada vez mais os jovens em situação de pobreza, da periferia das grandes cidades, marginalizados pelo sistema. Há pelo menos cinco eixos dessa desigualdade que devem ser levados em conta: a idéia da pobreza e exploração econômica; a opressão de gênero; a questão sexual; o racismo e a discriminação étnica; e a diferença de idade e a desigualdade de poder que muitas vezes existe em interações de pessoas de diversas faixas etárias. As atividades dessa segunda etapa não foram muito diferentes das atividades da primeira, mas acrescentamos algumas questões com base na violência estrutural e a sua importância, principalmente para os jovens. Foram organizadas atividades de capacitação profissional; desenvolvidos materiais específicos, dirigidos não só para os jovens gays, mas também para os pais; criados materiais direcionados a grupos específicos como o de transformistas, travestis, trabalhadores do sexo etc.

A valorização da diversidade e a conquista dos direitos têm sido constantes nesse trabalho. Outro ponto de fundamental importância tem sido escutar o que esses jovens têm a dizer e servir como fonte de pesquisa para eles e para outros grupos/instituições que trabalham com esse tema.

Desafios para o Futuro
Após fazer essa retrospectiva da atuação da ABIA no enfrentamento à epidemia de HIV/AIDS no Brasil, lembro que a falta de dados sobre as práticas sexuais frente à epidemia de AIDS dificultam a nossa ação. Há uma necessidade urgente de realizar pesquisas, tanto epidemiológicas – com dados quantitativos sobre comportamentos sexuais que possibilitem o monitoramento comportamental da epidemia – quanto sociais e culturais, que trabalhem melhor as questões de identidades, de construção, de subjetividades, que também são fundamentais para entender o trabalho que fazemos. Um segundo desafio nesse momento, que poderíamos chamar de Desafio da Discriminação, é enfrentar, fora e dentro do meio gay, o racismo, a discriminação de gênero e de idade, a homofobia externa, mas também internalizada na própria comunidade homossexual, e a discriminação, ainda presente no mundo gay, frente às pessoas vivendo com HIV/AIDS. Sem enfrentar essas discriminações não vamos avançar de uma maneira significativa.

Há, ainda, um terceiro desafio: o Desafio das Práticas Eróticas. Trabalhamos muitas vezes com uma sexualidade quase imaginária, diferente do que está acontecendo nas ruas. Isso faz com que as nossas ações educativas não atinjam de fato o resultado que esperamos, por isso, precisamos entender que práticas são realmente adotadas.

Um último desafio não pode ser esquecido: o da Transformação Cultural. A reprodução e mediação eletrônica da homossexualidade como um fenômeno é inegável hoje em dia. O chamado Capitalismo Cor-de-Rosa está cada vez mais presente na mídia, mas as ONGs ainda não sabem muito bem o que fazer com isso.

O enfrentamento desses desafios vai nos ajudar a fundamentar melhor o nosso trabalho. Através dele poderemos pensar sobre os próximos caminhos que a comunidade gay deve seguir na luta contra a epidemia de HIV/AIDS.

 

MAIN (English version)
PRINCIPAL (clicar Português)