Janaína Dutra: Uma Dama de Ferro

Dias de Filmagens

Direção: Vagner de Almeida

Produção: GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca

4 a 8 de abril de 2010

Fortaleza e Canindé

Quem éramos?

jana trip Canindé

 

Adriano Caetano, Henrique Leão,

Etiene Petrauskas, Celina Sampaio,

Álvaro de Ogum,

Marjorie Nepomuceno, Vagner de Almeida,

caminho de Canindé, Ceará

 

 

 


 

Uma jornada em direção a história da vida de uma Dama de Ferro, chamada Janaína Dutra que com coragem e muita determinação desbravou um Brasil a ainda ser desvendado.


 

Dia 4 de abril de 2010

As 5:00 horas em ponto já estavamos no saguão do Hotel Holiday Inn a espera da Van que nos levaria ao sertão do Ceará. Lá fora o sol despontava avermelhado, o mar estava calmo e a tradicional brisa de Fortaleza nos dava bom dia.

Eu e Etiene Petrauskas chegamos acordadérrimos ao saguão do hotel, em seguida Henrique Leão um dos nossos câmeras e técnico do filme também chega na garupa de um motoboy. Não tardou muito e chegam o restante da trupe com a nossa Desenhista de Produção, nosso corpo e alma neste dia Marjorie Nepomuceno, Adriano Caetano, Álvaro de Ogum e o nosso chofer Piu-Piu (foi despensando no dia seguinte por ser imprudente e homofobico).

Saimos para pegar Celina, irmã de Janaína, que nos levaria até a casa de D. Dargenira, a matriarca da família Sampaio Dutra, casa aqual Janaina viveu por muitos anos. Ou teve referência a vida inteira daquele lar da rua principal em Canindé.

Dargerina com seus 92 anos de vida e muitos enfrentamentos é tão ávida, altiva, lúcida, guerreira e forte. Uma senhora de ferro e osso que a vida lhe demonstrou tantas facetas diferentes felicidades e amarguras.

Saímos cortando estrada às 6:00 da manhã em direção a cidade natal de Jaime, Janaina Dutra, a cidade de São Francisco de Assis do agreste, a famoso Canindé, cidade de santos, romeiros, milagres, fé e muito calor.

Paramos algumas vezes na estrada para fazer muitas imagens do agreste por onde o féretro de Janaina passou. Como fala Mirthes no filme, "Janaína ia nos mostrando caminho por onde ela passou, de onde ela veio e para onde estava sendo levada"

A Caatinga estava verdinha por causa das chuvas que haviam caído por aqueles dias e os habitantes daquele lugar já estavam cedo com as enxadas nas mãos. Aravam a terra para o plantio da mandioca ou outra lavoura de subsistência. Ali o tempo parecia ter parado, pois a única conexão com a globalização eram os carros e as motas que cortavam rapidamente aquele agreste. No horizonte as nuvéns estavam calmas e o cús deslumbrantemente azul.

Primeira parada em frente a uma grande olaria e ali fizemos muitas tomadas “B-Rolls” para usarmos no filme. Fiz algumas fotos “Still” da equipe e do lugar mágico. Nada mas leve do que o orvalho da manhã em um dia de sol. O ar estava puro, saudável nos despertava para o dia.

Uma cachorra encardida, magra, carrapenta, parecida com a “Cadela Baleia”, de “Vidas Secas” do nosso inesquecível Graciliano Ramos, nos seguia por todas as tomadas. Um mergulho na história de tantas vidas de um local que era muito familiar para todos nós, pois a literatura nos trouxe até aqui, ali, lá, através dos escritos abençoados de tantos ilustres escritores brasileiros. Ano se passam e a pobreza desses locais são as mesmas de décadas e séculos passados.

O sertão é um desafio para se pensar o Brasil, mas raros autores foram tão corajosos para descrever com tanta precisão esse território como; “Os Sertões” de Euclides da Cunha, “O Quinze” de Raquel de Queiroz, uma cearense de Fortaleza. Uma mulher que viveu e descreveu a sua terra como ninguém.

 Geralmente o sertão foi pensando por olhares exteriores. Eu próprio como adolescentes e cursando o ginásio na Escola São Judas Tadeu, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, cresci conhecendo um sertão, uma caatinga com olhar exterior do mergulho que fiz nas leituras das aulas de português. Abençoadas leituras de uma disciplina chamada Literatura Portuguesa e Brasileirana, época de um ensino ainda digno no Brasil em escola pública.

Por onde andarás as minhas adoráveis professorinhas? - Dr. Dargenira era professora também!

Seguimos com a equipe para a segunda parada onde a trupe fez um pequeno lanche com tapiocas frescas em uma birosca de beira de estrada. As moscas eram demais e as tapiocas serviam para atrai-las quando se saboreava essa guloseima tão popular na região. Tão popular quanto as moscas.

As paredes da casa da birosca eram repletas de santos, flores secas e murchas, a higiene do local muito precária, falta de `agua corrente e banheiros sem portas. Privacidade na privada era zero.

Paramos por alguns minutos vendo a vida, que passava por ali muito devagar, quase parava e derepente era despertada por um veículo que passava em alta velocidade a nossa frente. Para todos nós, das cidades maiores, lugares mais agitados onde o céu não é revisitado como aquele que estava sobre as nossas cabeças. O azul era azul e o sol brilhava sem interferência das nuvéns, o verde era autentico e as flores campestres de cores variadas eram reais, nasciam no seu tempo e ali mesmo se despediam. Um deslumbre para um olhar atento. Só os atentos conseguem observar isto.

Mesmo sabendo que por ali a seca castiga o nordestino, mesmo assim o ar daquele local é tão menos intenso em sujeira do que das cidades grandes e globalizadas.

Época das moscas, disse a senhora nos servindo uma segunda rodada de tapiocas frescas, feitas na hora em fogo de lenha. Muitas moscas bailando sobre as tapiocas frescas e alvas. Um zumbido e mergulhos rasantes sobre as deliciosas tapiocas indefesas. Mesmo assim me atrevi a comer uma no intervalo da filmagem e das fotos que eu estava tirando. Confesso que estava extasiado com tantos cenários ilustres da natureza.

Henrique e eu saímos em busca de mais imagens do agreste, procurando filmar lugares, onde muitas das vezes a seca é perversa e persistente, mas as pessoas continuam ali arando e plantando em terras secas, as famosas mandiocas das famosas tapiocas cearenses.

O tom da luz ia mudando com o passar das horas e as cores iam ficando cada vez mais vibrantes e vivas como se estivessem acordando naquele instante.

Na beira da estrada muitos santuários de pessoas que foram mortas pelo transito. Símbolos da resistência da saudade dos entes queridos. Por todo trajeto na beira da estrada entre Fortaleza `a Canindé presenciamos a marca da estatística da violência do transito das estradas brasileiras. Algumas vezes muitas cruzes solitárias, outras capelinhas em duplas e alguns locais marcados com o visual de grandes tragédias, pois o número de cruzes e capelinhas nos davam a idéia de quantas pessoas haviam sido mortas ali.

Seguimos em direção `a Canindé observando pequenas cidades perdidas no meio da caatinga, frondosas árvores da resistente, o famosos Mandacaru, açudes semi secos, rios secos e alguns com fios de água, jovens em suas bicicletas, suas enxadas e uma garrafa de plástico pet com água. Resquícios da globalização as garrafas pets e os bonês da Nike ou outra marca da moda.

Geração de homens jovens que sobrevivem do arado da caatinga, pequenas fazendas ou lavouras de subsistências beiravam a estrada por onde passavamos.

Ali estava a Canindé de Janaina

Às 09h30min chegamos na entrada de Canindé, no limite da famosa Canindé de Janaína, que nunca rejeito ou deixou de citar a sua cidade natal por onde passou em vida. Logo nos deparamos na frente da imagem de São Francisco de Assis, simbolo maior da cidade, paramos, rezamos como bons romeiros, filmamos, fotografei e finalmente estávamos na terra de Janaina Dutra, alguns metros da casa onde sua mãe, D. Dargerina nos esperava com mais cinco irmãs, crianças, outras gerações da família e muitos curiosos.

Jana mãeDargenira nos esperava, no portão, em pé, com um olhar profundamente feliz, nos saudava como se todos ali se conhecessem por muitos anos. Foi um momento muito frágil para todos nós, que tivemos uma proximidade com Janaina. Confesso que leagrimas me vieram aos olhos, ao ver aquela linda senhora a nossa espera e sabendo que acordariamos lembraças de um ser amado dela que ali não mais estava. Dargê é um simbolo de alegria e vida!

Dargerina ou Dargê como Álvaro a chamava e mais tarde adotei o nome para mim também, nos abraçou com tanta energia boa que senti, ali, naquele momento que estava em casa, na casa de uma mãe que se sentia honradíssima em receber os amigos de seu filho/filha, que ali não mais estava em carne e osso, mas que com certeza espiritualmente ele ou ela chegou naquele momento com todos nós. Todos sentiram essa vibração. Um vento surgiu, abriu portas e janelas e passou.... varreu a casa e deixou um ar tranquilo de paz e alegria.

Fui apresentando por Álvaro e Marjorie como o diretor do filme e ela mais uma vez me abraçou e agradeceu por estarmos fazendo essa homenagem ao filho dela. A verdadeira hospitalidade nordestina estava ali nos braços de Dargenira. "Sejam bem vindos a minha casa, a casa de Jaiminho".

Como qualquer mãe de uma travesti, sempre chamará a travesti pelo nome masculino, nome que ela deu quando ele nasceu, pois não foi diferente com Dargê. Porém mais tarde, no meio de tantas coisas acontecendo, Dargê passou a se referir Jaiminho como Janaína. Influência nossa ou pura autenticidade dessa senhora repleta de nergia para distribuir a todos nós.

Às 10h30 tudo estava pronto e as filmagens começaram. A casa era uma festa, cheia, lotada de energia boa. As filhas de Dargê chegavam com seus netos e netas. Um entra e sai, muitas bençãos dos mais jovens e adultos. Dargê não parava de abençoar os netos e todos que beijavam a sua mão também lhe pediam um beijo. Lindo demais aquele ritual de respeito pelo mais idoso, pela pessoa querida, pela matriarca da casa. Senti-me honrado em estar naquele momento, naquela casa, fazendo junto a história de nossa Janaína e revendo valores que desapareceram da terra e muitos lugares e núcleos familiares.

Marjorie algumas outras pessoas da equipe sairam para comprar o café, que mais tarde seria servido a todos. Uma festa em plena segunda-feira pela manhã. Não era um cateering qualquer. Era uma festa em Canindé, na casa da nossa amada Janaína onde a protagonista principal era Dargê, atriz nata e mulher brilhante.

Confesso que estava muito tenso ocm tanta responsabilidade nas costas, mas Dargê era o meu termometro de paciência, calma e positividade.

Prontos?

 Silêncio! - Luz, Câmera e Ação “Gravandooooooo”

jana familia

Entra em cena a personagem principal D. Dargerina Dutra, a fantástica Dargê. Uma protagonista sem igual aos 92anos de idade.

Como Descrevê-la? Difícil!

Um misto de tantas coisas, que levaríamos muito tempo para finalizar essas poucas horas que passamos com ela e que nos deixou um legado de tantas lições de vida.

O preparo para o primeiro “take” com ela, em uma sessão de tantos outros.

Câmeras posicionadas, luzes rebatendo no teto de telhas coloniais e nas meias paredes típicas de casas dessa região do Brasil.

Necessitaria que Dargê percorresse o longo corredor que se estendia desde a entrada principal da casa até os fundos. Seria uma única tomada, caso não tivéssemos tido um problema de sombras, reflexos, nos enquadramentos. Algo estranho como se tivesse uma outra pessoa ali junto com Dargê ou acompanhando ela neste percurso do corredor. Confesso que nõa só fui eu que vi essas imagens. A camêra registrou as sombras. A equipe não via ao vivo as sombras, mas na camêra elas estavam lá. Alguém maparava Dargê e nada era em vão ali. Tudo com significados, alguns explicados pela natureza e outros não.

Dargê necessitaria refazer a cena e ela simplesmente fez todas as vezes que foi solicitada dizendo uma única frase:

Não tem problema, preciso fazer exercícios mesmo. Tenho que andar, me movimentar mais. Para mim está perfeito. Posso repetir quantas vezes for preciso

Finalizadas cinco tomadas com ela partimos para a entrevista na mesa da cozinha. Antes de sentar, ela vai até a um grande quadro de fotografias na parede e começa a falar de cada foto, inclusive de seu filho preferido Jaime, nossa Janaina. Ela não esconde e nem fica constrangida em falar que ele era o filho querido, o predileto, apesar de amar todas os outros filhos.

Ali vimos fotos de todas as idades de Janaína, desde menino de calças curtas a sua fase adulta, em sua formatura no ginásio com calças compridas, gravata e seu jeito de adolecente.

Dargenira relatava todas as falas pensadas, abrindo recordações bonitas, relembrando por menores e apontando para cada foto da parede com muito orgulho do filho. Não se cansava de repetir que ele era honesto, trabalhador e muito carinhoso com os pais e irmãos.

Para quem conheceu Janaína de perto podia endossar o que a sua mãe estava naquele momento falando. Janaína era a pessoa mais bonita por dentro e por fora que muitos de nós tivemos a honra de ter conhecido.

Que todas as mães e pais no mundo fossem iguais os de Janaina

O café foi servido, muitos se sentaram e Dargê se colocou na cabeceira da mesa e começou a contar histórias de vida, dela e de todos ali. Não havia quem pudesse interromper essa senhora. Cada história repleta de detalhes como se tudo tivesse ocorrido dias atrás, horas passada, tal rico e preciso eram os detalhes dela narrando as travessuras de vidas de todos eles. Memória treinada a vida inteira a guardar histórias de vida, dela e dos outros tantos filhos e netos. Detalhista aos extremos. Frases completas por coordenaçnao e subordinação. Sem reticências ou dúvidas de dia ou local, ano ou hora quando aconteceu o fato.

Uma senhora sem preconceitos ou despida dos preconceitos que o seu filho sofreu a vida inteira. Juntos choravam as tristezas e celebravam as alegrias.

Só acordou saudades bonitas do filho e como foram as revelações de Jaime para Janaína, das transições de vida em família e para a comunidade, os medos e as injustiças que Jaime sofreu. Como mãe sofria com o filho ao vê-lo sofrer tanto, assim relata com um pouco de angustia na voz, mas sempre firmes nas frases.

Depois das tomadas de cena de Dargê, seguiram as tomadas das irmãs e muitas histórias surgiram no meio de tantas saudades e lágrimas.

Câmeras, Testes, Som e Enquadramentos! Gravandoooo!

O dia havia realmente começado

trupe

Tatá a irmã número sete de uma família de 10 irmãos, chora muito de saudades do irmão que amou e o respeitou. Nela percebia-se a verdade brotar do coração. Tinha uma saudade ou bem dizendo, tinha muitas saudades, daquelas que só de lembrar o nome doi lá dentro do coração.

Vem em seguida a irmã de criação Fátima e as irmãs gêmeas de Janaína. Todas relatam minúcias tão interessantes do irmão.

A casa estava em festa, pessoas de todas as idades chegavam para participarem daquele momento na história de vida de Jana, que estava sendo resgatada naquele momento.

Coisas estranahas aconteceram na casa no momento da filmagem. Uma brisa forte surge do nada naquele calor infernal e abre portas e janelas. As pessoas se olham e acham muito estranaho aquele fenômeno do vento entrando e abrindo tudo, fazendo barulho e refrescando o ar. Os santos nas paredes balançam, as florers de plástico parecem que vão voar dos vasos e derepente tudo se acalma. o Vento passa e a filmagem continua. Algumas pessoas não perceberam, mas alguém trouxe aquela brisa para aquela casa e percorreu por toda casa e saiu.

Marjorie nos avisa que estamos 30 minutos atrasados em nossa agenda e necessitávamos seguir para casa de Manoelzinho, onde faríamos as tomadas de cena com ele em sua casa.

Antropológica a casa desse artista era um pouco fora do comum ou bem dizendo, muito fora do comum, pois gatos, cachorros, galinhas, patos, marrecos, pássaros se manifestavam com a nossa chegada. Uma orquestra de bichos. Os animais soltos pela casa, nas mesas, em cima do fogão, armários, cachorros estranhando aquele bando de gente entrando em seus espaços, comida sendo feita, papagaios emitindo sons altos, em fim, impossivel gravar ali com microfones. IMPOSSÍVEL! A picina da casa era tanto de gente como dos patos, marrecos e cachorros. Só ali dava um filme !

Impressionante a cena, só mesmo presente para podermos entender o que acontece naquela casa onde os animais dominam cada canto, cada espaço tem um ser vivo animal. Não conseguimos filmar lá, pois o barulho dos animais era uma sonata descompassada e muito barulhenta. Todos os bichos, incluindo nós, resolveram nos manifestar no mesmo momento. Verdadeira torre de babel! - Amei ver um galinha em cima da mesa! Nnao era um bibelô ou uma escultura, ma suma galinha cô-cô-rô-cô-cô

Manoelzinho é uma encarnação de São Francisco de Assis e seus animais. Ele retrata imagem do seu devoto pintando telas impressionantes e tem muitas encomendas. Também é um professor da escola pública em Canindé.

Saímos dali, observando toda a vizinhança nos espiando e fomos em direção ao restaurante, sitio “Oásis da Caatinga". Lindo demais o local, muitas `arvores, cajueiros, coqueiros, lagos, santos nos cantos do jardim, cachorros, crianças e um memorial do dono que havia falecido, mas a sua saga continua ali com as pessoas que cuidam daquele local.

Filmamos Manoelzinho ali mesmo, sentando embaixo de um cajueiro verdinho. Detalhe, muitas formigas despencavam do cajueiro e caia sobre nós. Interrompemos várias vezes as tomadas, por causa do confete de formigas sobre as nossas cabeças. Quando não eram as moscas que nos atacavam, eram as formigas famintas que nos devoravam.

Manoelzinho não pode conter as lágrimas ao relatar a história de vida que teve com Janaína, a guerreira, que era uma malabarista no arame sem redes de proteção naquela região de Canindé.

Ele conta todas as nuances picantes de Jana e juntos passaram momentos de muita divagação, lirismo e enfrentamentos, pois Canindé é um verdadeiro corredor polonés para a diversidade sexual. Terra de romeiros e machos, cidade da moral e bons costumes, terra onde as pessoas vão pedir a juda ao santo e ao memso tempo são extremistas com os seus semelhantes chamdos por eles de desviantes.

Cada frase de Manoelzinho era um poema a sua amiga querida e saudosa. Não se cansava de se auto repetir, dizendo que Janaína foi muito corajosa, uma guerreira, enfrentou tudo e todos com muita dignidade.

Acabando as tomadas com ele seguimos para uma longa mesa que nos esperava para o almoço com pratos maravilhosos em uma varanda aberta e fresca. Podíamos ver o grande e majestoso São Francisco de Assis de Canindé no alto do morro dali mesmo da nossa mesa. Uma casa grande fazenda do sertão nordestino brasileiro.

Três grandes peixes fritos, pescados ali mesmo nos tanques de criação de peixes e acompanhados de legumes cozidos, baião de dois farto, pirão amarelinho e muita cerveja gelada. Tudo muito barato, muito bem feito, comida preparada com carinho e afeição.

Logo em seguida do almoço foi à vez de filmarmos Álvaro de Ogum, o Mestre Sala de tantos momentos com Janaína. Ele que desvenda Janaina de outra forma, mais explosiva, menos endeusada, mas ainda muito amada, muito respeitada, porém desnudada de outra maneira. O único que durante toda a filmagem nos mostra a outra face de Janaina. A briguenta, temperamental, ser humano normal, sem maquiagem ou máscaras.

Álvaro nos revela a autenticidade de Jana que surfava entre santos do catolicismo e os orixás do candomblé. Um ser de muitas facetas e todas na maioria de grandes valores para a vida de tantos e do mundo.

Jana ao ser presa um dia solicitou ao Álvaro que fosse a sua casa buscar roupas de homem, pois ela seria a sua própria defensora. Venceu a causa na delegacia e mais tarde nos tribunais.

Só Álvaro mesmo para falar do jeito Jaime e da Janaina, que algumas vezes, pulava a cerca da fêmea e se mostrava como macho, forte, audaz e valente. 

Saímos do “Oásis” e fomos filmar no monte onde São Francisco de Assis, de trinta metros de altura e todo feito de pastilhas estava ali nos olhando e nos protegendo. Filmamos, fotografei muito e vi lá de cima toda a cidade de Canindé humildemente majestosa a seu modo, se espalhar entre pequenos vales, uma represa ou lago e a caatinga maior que se perdia de vista.

Esse monte é o local dos “Romeiros” passarem e deixarem ali os seus pedidos, depositam a sua fé nos pés do santo, tiras as suas fotos, compram os seus santos nos vendedores ambulantes, amarram as suas fitinhas ao cercado do santo.

Milhares de fitinhas são amarradas nas cercas que circundam S. Francisco. Uma fotografia impressionante, pois são milhares de fitas multi coloridas e com elas os pedidos de cura e solução de tantos problemas dos fieis.

Acabei comprando três santos para nós e amigos. Um local de energia forte, uma força estranha que se confunde com o calor infernal e a paisagem, o vento brando, escasso e a altura do santo que debaixo para cima, parece tocar o céu azul.

 Depois seguimos para o cemitério, onde Jana está enterrada. Sua campa estava ao meu lado onde parei e ninguém sabia onde se encontrava a sua cova. Coincidência? Sei lá... Mas o dia foi repleto delas. Ali estava eu, em frente ao tumulo de Jana, sem nunca ter entrado naquele cemitério ou ido aquela cidade. Continuo a falar que Jana estava conosco o dia inteiro ali em Canindé conosco e nos outros dias também.

Uma cena rara que seo sendo explicado em loco. Chegamos no cemitério e eu dividi as pessoas por quadras para que pudessemos encontrar a sepultura de Jana, pois o coveiro, muito simpeatico por sinal, não sabia onde ela estava enterrada. De ond eeu estava pedi as pesoas para seguirem olhando cok atenção e aos meus pés estava a minha frente, a sepultura de Janaína. Confesso que gelei naquele calor infernal. As pessoas se surpreenderam com tamanha coincidência aquela fato..

Seguimos para fotografar e filmar a escola onde Janaina cursou seus estudos primários e secundários antes de seguir para Fortaleza e ir morar com a sua irmã Celina. Entramos na escola onde a sua irmã e cunhado trabalham e por coincidência, mais uma vez, entre tantas do dia, vi a sala de aula de Jana. Ainda pintada com a mesma cor da época de Jaiminho.

Paramos na “Casa dos Milagres”, andamos a pé pelo centro de Canindé, bebi com Álvaro um liquido delicioso e açucarado, vimos um pequeno comercio Paraguaio repleto de coisinhas globalizadas. As famosas quinquilharia que o povo compra.

A Casa dos Milagres fica do lado da Catedral da cidade e com muitas pessoas que entram e saiam desse recito. Ali depositam a sua fé ou um objeto de madeira, uma escultura de um pedaço de corpo doente. Outro local muito misterioso e ao mesmo tempo desbravador.

O sol era tórrido e o calor nos consumia.

Bebemos mais de 40 garrafinhas de água antes de seguir para Fortaleza no final da tarde.

Ainda retornamos para rever Dargenira e abraça-la no final do dia. Ela estava meio chorosa e muito feliz com todos nós. Uma adulta, anciã, criança que deixa as emoções mais simples aflorarem do seu coração. Nós despedimos de todos e começamos seguir viagem. Ainda virei a cabeça para tráz para ver a imagem de dargê nos acenando e todos nós com as mãos para fora do carro dando um adeus para ela. Confesso que me emocionei muito. Senti uma tremenda saudade de minha mãe e de Janaína.

Paramos em uma padaria e devoramos tudo que era possível. Eu chupei quatro picolés de frutas e um gatorate antes de entrar no carro e seguir para Fortaleza. Confesso que queria mais, muito mais.

A viagem foi longa e ainda havia raios vermelhos do sol no horizonte, mas foram logo desaparecendo e deixando os faróis dos automóveis que vinham em nossa direção ofuscarem os nossos olhos.

Chegamos à periferia de Fortaleza já muito tarde e seguimos para o hotel. Um longo dia, corpos moídos, suados e desidratados, mas com resultados maravilhosos.


 

Dia 5 de abril de 2010 às 09h:00 da manhã

Café farto pela manhã no restaurante "Capo" do hotel. Comi de tudo e em seguida a culpa se instala. Pecado da gula e das delícias cearenses.

O carro chega, Marjorie está lá prontíssima para os enfrentamentos do dia. Etiene e eu chegamos carregados de equipamentos e seguimos para o GRAB, passando por uma avenida muito movimentada para pegarmos Álvaro.

GRAB e a Maratona do Dia e dos Entrevistados.

O dia prometia muitos altos e algumas baixas, mas no final de cada ato, um final positivo.

Ao chegarmos Tassiana Lima, já nos esperava linda, sentada em um sofá rosa choque da sala de show do GRAB. Pacientemente esperou a equipe montar os equipamentos, testar a voltagem da casa e ajeitar os microfones.

Pronto! Luz, Câmera e Ação! Gravandooooo

Tassiana estava calma, mas com pressa para ir trabalhar, pois ela agora é uma advogada, uma profissional que começou a sua carreira ao lado de Janaína. Aprendeu com a mestra a conviver com a diversidade e divulgar as diferenças no universo dos Direitos Legais.

Contou-nos sobre a trajetória ali no GRAB e sempre sendo incentivada por Jana, a olhar a vida com outros olhares, múltiplas visões e foi o que ela fez seguindo os passos da mestra.

Um depoimento comovente e cheio de lágrimas como a maioria dos outros depoimentos desses dias.

Finalizamos com a gentil Tassiana e sentamos para refletir sobre o filme quando esperávamos os outros amigos de Jana que comporiam a trajetória do filme.

Onde estarão os outros entrevistados?

Os entrevistados não apareciam e a bola de neve se criava com os atraso.

RenataFinalmente entra na sala, ou bem dizendo no estúdio improvisado no GRAB a menina travesti Renata Andrade, mais uma das crias de Janaina e um doce de pessoa.

Organiza os cabelos, olha para a câmera depois de sentar em um canto da sala e relata sua vida de prosperidade material, intelectual e espiritual, pois Janaína sua madrinha havia lhe ensinado tudo isto.

Conta uma passagem de sua vida, em uma época em que a sua auto-estima era zero foi Janaína que lhe puxou de onde estava e lhe deu a mão e o empurrão para prosseguir. Confessa que sem ela não teria conseguido

Falei com ela que não conseguia mais passar por ali, naquela rua onde eu tinha que morar, por causa das piadas e agressões verbais e eu disse, que eles nunca iam se acostumar com aminha pessoa passando por ali durante o dia e só sairia de casa a noite. Foi quando Janaina me falou que eu teria que passar ali todos os dias e várias vezes no dia, até eles se acostumarem com a minha pessoa. Foi o que eu fiz e eles tiveram que se acostumar comigo e lá estou até hoje”. Foi Janaina que me fez mudar e eu mudei.

Mais um chega ao nosso estúdio improvisado

Atrasado e nervoso chega Alexandre Fleming para nos relatar sua vida acadêmica com Janaína e como ele escreveu e aprendeu o universo que ele estudava e não convivia, mas Janaína lhe deu todas as direções e ingredientes para poder escrever sua tese e mostrar aos mundos, universos tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo.

No Capítulo IV – O Voo da Beleza, Alexandre começa a descrever o universo e pensamentos de Janaína e nos relata a importância de Janaína Dutra em sua vida profissional.

O calor chega aos 39 e não há nem uma brisa no ar

Francisco Pedrosa chega fagueiro e estimulado com as histórias de Canindé, pois todos, de seus jeitos e visões tinham uma prosa a relatar e momentos inesquecíveis para lembrar par o resto da vida.

Rapidamente o posicionamos e começamos com a entrevista dele. Sempre muito pesantivo dava sempre as respostas ou relatava algo com certa pausa, reflexão e nos conta a importância e a falta que Janaína faz e teve na instituição e na vida de tantos ali.

Relata sobre a Rede de Pessoa Convivendo com o HIV/AIDS, onde Janaina criou o estatuto da Rede e da importância dela no cenário nacional brasileiro e no Ministério sa Saúde.

O irmão que não se despediu

Orlaneudo Lima chega muito nervoso, pois as câmeras e falar de Janaína lhe trouxeram memórias nada confortantes. Mas com calma e exatidão relata a infinita adoração e carinho que tinha por Janaína, mesmo não estando com elas nos últimos dias de vida. O sugeri que falasse com a amiga tudo que não pode falar nos dias que antecederam a sua partida desse sistema.

O irmão que não se despediu consegue deixar uma mensagem linda, comovente e muito pessoal na sua tomada de cena.

“Às 13:20 - Hora de comer! Hora sagrada do almoço Nordestino!

 Para-se tudo no estúdio! Ordem da nossa chefa de produção, Marjorie Nepomuceno!  Partimos para um restaurante carnívoro “maravilhoso” e lotado, onde fizemos uma tremenda confusão com as mesas, reorganizando o layout do restaurante e depois resolvemos mudar de cena e sentar em outro canto. Inacrediteavel, porém verdadeiro.

Momento de encontrar “Deus Baco” e nos refrescarmos em um ambiente climatizado e com algumas garrafas de cervejas geladérrimas. Um pecado maravilhoso em pleno meio dia de trabalho forçado.

Carne de Sol e Maminha na Brasa, arroz branco e saladas verdes e variadas. Achei que a equipe ia morrer por causa da gula, mas não, devoraram quase tudo. Sobrou umas duas batatinhas para contar a história da comilança

“Uma conversa literalmente sacana e saudável para à hora de degustarmos ou devorarmos tudo que se encontrava sobre a mesa.”

Às 14h:37min retorna-se às pressas para o GRAB, pois o dia continuava e era hora de entrevistarmos Mitchelle Meira, outra protagonista importante dentro do movimento e das movimentações de militante com Janaína nas faculdades de Fortaleza anos passado.

Mitchelle amiga próxima de Jana presenciou muitas formas de discriminações contra ela nas palestras que iam enfrentar juntas nas Universidades. Mesmo sendo Mitchelle lésbica assumida perante uma platéia heteronormativa e homofóbica classe média alta, mesmo assim, ela era mais respeitada do que Janaína a travesti, advogada e reconhecida em todo Brasil.

Em cada platéia que se apresentava no universo dos que não sabiam ou continuam a não saber conviver com as diferenças Janaína necessitava matar vários dragões ensandecidos.

Por Janaína ser uma travesti, as pessoas desqualificavam sua capacidade de ensinar, debater e responder. Mas Jana quebrava o ostracismo com uma frase ou um análise, mesmo quando não era perguntada ou solicitada para subir a um palco. Bastava abrir a boca que a sala se silenciava, mesmo sem querer o público tinha que escutar e aplaudir o que ela tinha a dizer.

As piores platéias eram as de Direito, onde os futuros advogados/as do Brasil desacreditavam imediatamente da postura de Jana, mas bastava abrir a boca e eles tinham que engoli-la por inteiro. Fascinante o poder dela e das palavras

Às 17h:56min acabamos por ali!

Final de entrevistas no GRAB, processo de reorganizar materiais, mas o dia ainda continuava mais tarde em rever as imagens dos dias anteriores e um jantar regado com um vinhozinho e o descaso do dia merecido.


 

Dia 6 de abril de 2010 “Dia D”

 

Esse dia prometeria muitas coisas, muitas visões, revisões de alguns fatos que brotaram durante a filmagem do documentário de Janaína Dutra. Mas como tudo na vida é um caso de se procurar soluções, então não foi difícil encontrarmos algumas.

Procuro sempre revisitar várias soluções para cada problema, pois acredito que tenham muitas soluções a espera de cada enfrentamento.

Pela manhã alguns telefonemas de desistências ou recuos de entrevistas, mas Marjorie sempre muito focada em encontrar as brechas e deixar o entrevistado sem poder dizer não, mesmo que assim desejasse escapulir dos takes do filme. Ela conseguiu cada entrevista marcada, exceto da prefeita Luiziane Lins, que nos deu um chá de cadeira e de furos. Recordista olimpíca em furos.

Perdemos muito tempo esperando a Sra Luiziane Lins. Essa nos prometeu uma série de horários e que nos daria uma entrevista exclusiva, mas desapareceu o tempo todo, nos fazendo perder tempo e esgotando a nossa paciência, pois seria muito fácil ter nos liberado de sua entrevista.

Às 19:00 horas enfrentamos um transito mortal no centro de Fortaleza, cortando a cidade até a rua Uruburetama, Montese, casa onde Janaina morou com a sua irmã até seus últimos dias.

Essa noite iria me encontrar com  Cécilia, seus filhos e sua irmã mais velha e faciar alguns enfrentamentos sobre o roteiro do filme com ela.

Chegamos na casa e logo fomos recebidos por familiares que ali se encontravam para ver as filmagens e participarem daquele momento.

Cécilia me apresentou o filho com a nora e a netinha recém nascida, e a sua filha jovem. Todos muito lindos como Janaína sempre mencionou que eram. Sempre falou deles com muito carinho, carinho esse que ia desde tio/a a pai que eles não tinham.

Todas as artes de Janaina, fotos, documentos, cartões de Natal que Janaína fazia a mão, criava, estavam ali sobre a mesa da cozinha para serem filmados e fotografados.

Dirigi-me ao quarto de Jana e lá estava a famosa porta de lantejolas e pedrinhas coloridas com colagens dos pais e de grandes homens que mudaram a história desse pais e do mundo.

Preparamos o set de filmagem e começamos pela Celina falando sobre o irmão, das dificuldades e felicidades que passaram ali naquele quarto e casa. Com palavras veladas relata momentos de encontros e desencontros de idéias. Sente muita saudade do irmão. Lê cartas que trocavam dentro de casa, quando brigavam e se emociona com os relatos e a abertura dos bilhetes deixados sobre a mesa da cozinha nos dias que se seguiam depois de se depararem com pontos de vista diferentes.

O proxímo a nos dar a riquesa de suas palavras é o seu sobrinho Helano, que com os olhos cheio de lágrimas, mesmo tentando conter as lágrimas, nos revela que Janaína foi o pai que ele não teve e com ela, ele aprendeu a não ser um policial truculento com os homossexuais e as travestis. Nunca teve vergonha do tio e sempre o achou um exemplo para a sua vida. Tudo que sabe hoje sobre direitos humanos, aprendeu com a Janaína ali dentro daquele quarto ou na mesa da cozinha fazendo colagens com o tio.

Mais sensivel ainda do que o irmão, foi a sobrinha de Jana, a Livia, que pede licensa para todos nós para chorar e dar continuidade na sua fala e disse que a saudade dela não ia acabar nunca e onde ela estivesse que não deixasse de olhar por eles.

A última entrevista da noite foi da irmã que com muita leveza, espiritualiza a fala sobre Janaína e deixa o recado que todos se encontraram de novo em algum lugar do cosmo.

A trajetória da família de Janaína terminava ali com essa última entrevista da noite, visto que a irmã de São Paulo e o irmão de Janaina que não foi mencionado por ninguém da família não deram depoimento sobre ela.

Célina ainda deseja muito falar comigo e me entrega as folhas do meu roteiro e me pede que certas coisas não sejam mencionadas no filme sobre Janaina.

Manejar certos pedidos depois de tanta colaboração da parte deles todos, chega ser quase uma ordem e deixar de atender chega a ser um grande erro.

Mas esquecer ou camuflar a história é permitir que a mesma não tenha sido contada como deveria ser.

What to do? – I don’t know!


 

Dia 7 de abril de 2010

Um dia diferente e cheio de enfrentamentos começando pelo café da manhã as pressas e com a mestre das tapiocas e ovos um pouco fora do compasso. Observei que ela estava completamente decontrolada hoje, mas sempre sorridente e educada. Acabou acertando na minha quinta tentativa de comer uma tapioca de côco e queijo.

Mudança de motorista, sóbrio e calmo, pois aparentemete estava menos acelerado do que o anteiror, o Piu-Piu.

Vereadores JãoaHoje filmariamos João Alfredo (Psol) na Câmara dos Vereadores de Fortaleza. – Conseguimos depois de muito esforço dentro daquele espaço repleto de contradições e prepotência fazer a filmagem com o João.

João criou uma lei com o nome de “Janaina Dutra” para ser implantada dentro das escolas.

”O projeto de Lei 195/09, de sua autoria, acaba de ser sancionado, e institui a “Semana Janaína Dutra” de promoção do respeito à Diversidade Sexual na Rede Pública de Ensino Municipal, a ser realizada anualmente, no período que contenha o dia 17 de maio (Dia Internacional de Combate à Homofobia), com a realização de debates sobre o tema.
As escolas refletem as relações de opressão e de invisibilidade sofridas pelo segmento LGBTT. De acordo com a pesquisa realizada pela UNESCO em 2004 nas escolas de Fortaleza, 30,6% de alunos não gostaria de ter um colega homossexual; 47,5% de pais, não gostariam que seus filhos tivessem amigos homossexuais; 22% de professores acham que homossexualidade é uma doença.”


Às 17:00 horas fomos em direção do Hospital onde Janaína havia sido internada para encontrar com a Mirtes, sua amiga e conselheira, uma deusa das deusas. Uma pessoa impressionante e mais uma vez os acaso dessa filmagem nos demonstrou que a vida é uma colcha de retalhos de fatos que nem percebemos a nossa volta.

Como havia dito o dia era repleto de coisas truncadas e nós aparentemente sem soluções para as coisas e no final de cada intercessão um resultado positivo.

Mirtes não poderia nos dar entrevista na última hora, pois estava com um parente no mesmo hospital que Jana havia sido internada. Ela estava tensa e fumava muito, mas resolveu dar a entrevista e como há Deus realmente tudo deu certo.

Ela nos esperou no jardim da entrada do Hospital e não podíamos gravar ali. Estávamos necessitando de permissões do hospital. Balde de água fria, pois a noite se aproximava e nós só tínhamos um Sun Gun fraco em nossas mãos e uma íris que não iria resistir o cair da noite.

Porém, mais uma vez Jana estava ali conosco e do nada chegou a mulher do diretor do hospital que acabará de falar com o seguranças da entrada. Ela uma médica se aproximou  e eu me apresentei, falamos sobre a importância do filme e da protagonista Janaína Dutra, aqual foi logo reconhecida pela médica.

A noite resolveu dar uma estancada e parou no tempo, tempo esse que rapidamente montamos as câmeras e demos início as filmagens de Mirtes com passagens e histórias sobre Jana surpreendentes.

No meio de tantos desafios, Mirtes ainda teve fôlego de heroina para nos contar muitas coisas entre uma tragada de um cigarro, um sorriso triste, uma fala clara, comovente e de uma espiritualidade profunda.

Essa trégua entre o entardecer e a noite logo  acabou e a noite tomou o seu lugar de forma muito rápida. Mais uma das coincidências da vida ou de Jana naquele dia.

Retornamos para o hotel muito exaustos e ainda fomos trabalhar um pouco as imagens antes de sairmos para jantar em um Pub na Aldeota com Marjorie.


 

Dia 8 de abril de 2010

Café da manhã mais longo e menos estressado, apesar de ser o nosso último dia ali em Fortaleza e às 17:15 iriamos seguir para o Rio. Havia muito ainda para ser feito e filmariamos no Passeio Público o ex companheiro de Janaína, o poeta Claúdio Portela.

PoetaEncontramos com ele às 8:30 e fizemos todas tomadas ali mesmo e ouvimos um poema que ele recitou para Janaina várias vezes.

Fotografamos e com a ajuda dos policiais do parque, nada nos ocorreu por ali. Segurança total!

Seguimos para a casa de Jairo, velho amigo de Janaína, que nos esperava para a sua filmagem.

Sua casa e seu próprio local de trabalho e ali mesmo ligamos o nosso equipamento e em menos de uma hora haviamos terminado tudo e com a revelação do nome da ATRAC, que nos foi contado por Jair. A origem do nome veio da briga de várias travestis em uma esquina de encontros dela. Janaína presenciou aquilo e resolveu fundar um local onde as travestis pudessem discutir os seus problemas e daquela “ATRACAÇÃO" entre elas”, surgiu o nome da ATRAC – Associação de Travestis do Ceará.

Seguimos as pressas para o hotel, pois ainda teriamos um almoço com a equipe do GRAB para fecharmos essa primeira fase das filmagens.

Almoçamos em um self-service e seguimos para o hotel para fechar a conta e seguir para o aeroporto e sentar no Louge do American Express e esticar a alma e as pernas um pouco até às 17:50 qdo começamos a embarcar.

Chegamos no Rio às 22:00 cansados, mas com missão até ali cumprida.

 Jairo

 


 

 

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