Construindo o Filme - Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica

Gilza
Lady
Martas

Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica”, um filme documentário muito difícil de realizar, porém muito gratificante em todos os momentos de sua criação.

 

Muitas disseram que não escolheram a forma e o desejo de serem e enfrentarem o mundo, quase sempre pagando ônus pelo que a sociedade mais ampla considera um desvio na conduta da moral e bons costumes.


Circulam em redes de vizinhança, sendo em comunidades onde as pessoas vivem, nos seus locais de trabalho ou lazer um fenômeno que transita através da fofoca. Uma das formas mais perversa de machucar outro ser humano. Das más línguas com suas infâmias, usos de terminologias sarcásticas com aqueles risinhos de lado de boca, piadas ofensivas que mexem nas partes mais sensitivas do outro, apelidos provocativos e desnecessários, insinuações por parte de homens com as mãos nas genitálias ou cuspindo no chão, quando elas passam, a incorporação das palavras de Deus usadas contras as pessoas. Tudo isto faz parte desse universo do avesso que a sociedade brasileira se renega a desvendar.

 

Entre encontros e despedidas, entrevistas com amigas/os, conhecidas/os, desconhecidas/os, parceiras/os, pessoas que me atropelaram e outras que me deram muita força para persistir consegui chegar até aqui.

Amigas que no decorrer desses anos também nos deixaram e com uma história linda para ainda ser contada a muitas pessoas.

 

Como ressalta Maria Lúcia, uma das entrevistadas, que diz que o sonho dela é ter alguém cantando para ela;

 

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
é ela menina, que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
é a coisa mais linda que já vi passar

 

 

Foram alguns anos coletando imagens através da fotografia, filmando, depoimentos de amigas e desconhecidas, em paradas de ônibus, botequins de esquinas de cidades das periferias do Brasil, nas capitais, em Paradas do Orgulho Gay ou em manifestações de violência contra as mulheres.

 

Muitas dessas mulheres, ainda estão dentro de seus armários, outras saíram das cristaleiras.

 

Algumas se recusaram a pronunciar a palavra “lésbica, lesbianidade, lesbianismo” ou tantos outros nomes que a mulher lésbica ouve da sociedade.

 

O glossário perverso é extenso, quando se trata de apelidar, taxar, marcar essas mulheres.

 

Consegui sentar com 503 mulheres, algumas assumidamente lésbicas, outras bissexuais. Foram alguns anos buscando o reconhecimento dessa comunidade de cidadãs que proclamam por respeito, visto que, são abarrotadas de obrigações.

 

Muitas mulheres têm o interesse de vivenciar momentos homoafetivos, mas sem a necessidade de serem lésbicas. Diziam-se interessadas na coisa. Outras, mesmos confortáveis com o assunto, confessaram-me que mulher não era a praia delas, mas que as respeitavam muito e as admiravam também.

 

Um número bem acentuado de mulheres confessou que era uma pouca vergonha duas mulheres juntas e outras tantas usavam a bíblia como argumento principal para fundamentar suas opiniões em palavras ditas sagradas.

 

Em uma das tantas entrevistas, uma mulher negra, convivendo com familiares evangélicos, nesta entrevista consegui contabilizar 23 nomes, jargões, que a entrevistada, sem poder mostrar o rosto ou revelar a sua identidade, disse-me já ter ouvido e sido chamada. Fiquei muito solidário com o depoimento dela, pois essa linguagem corrompida, essas gírias perversa a perturbavam muito. Só em pronunciar as palavras para mim, se sentia envergonhada e ofendida ao mesmo tempo.

 

Termos como: “saboeira, sapatão, chuca-chuca de chiclete mastigado, Bombril, fanchona, mulher macho, mulher com mulher dá jacaré, velcro de pelúcia, soldada, coturno, salsichão, pafuda, machadão, laranja ou banana, tachão, Mariozão, xucuda, bateção de bife, roçona, estuca-estuca, Maria Sapatão, estivadora, capineira, buce... de bosta (o pronunciou a palavra)”.

 

 O pior e mais ofensiva para ela; “Ser a vergonha da família”. Carregar o peso da vergonha da família é um sacrifício muito grande ela.

 

“Palavras não são lapadas, mas machucam, machucam...”


Outro momento solene e reflexivo foi o relato de uma jovem bem masculinizada que me disse:

 

As pessoas olham a minha mãe com um olhar de reprovação, quando eu venho visitá-la, onde ela mora e eu morava também. Fui expulsa de casa quando completei os meus 18 anos. Retorno uma vez por mês para levar um dinheiro para ela. Mas sei que ela não gosta que eu vá lá, pede para me encontrar longe do bairro, pois as pessoas fofocam sobre a minha pessoa e descontam em cima dela... eu entendo, eu entendo o que ela passa... eu entendo

 

Neste momento a entrevistada coloca a mãos no rosto, abaixa a cabeça e chora muito, com a mão ainda no rosto me pede desculpas. Senti muita pena dessa jovem, que desesperada tenta de tudo para rever a família que a rejeita, que tem medo do olhar da vizinhança. Continua a relatar, que sofreu dos atentados de estupro e uma violência de sexo oral com um dos membros do trafico de drogas da comunidade. Era ela ter que fazer o sexo oral ou seria expulsa e estuprada ali mesmo.

 

Mas como diz o velho ditado popular, a fofoca da sabor a vida do fofoqueiro e a violência prevalece contra a mulher e os indefesos”.

 

Esses foram alguns dos tantos depoimentos que fui recolhendo no percurso dessa trajetória para construir essa cortina de vidas tão diferentes e tão iguais em certos aspectos. São fragmentos de tantas outras histórias de vida, incluindo relatos de pessoas que conseguiram se assumir perante a família e a sociedade sem nenhum estresse, sem dor ou murros em pontas de facas.

 

Via a gestualidade, no vestir, no andar, no falar, no agenciar de traços concebidos como masculinos foi onde as críticas e os julgamentos foram mais acirrados. Mulheres masculinizadas e negras eram as mais apontadas como desviantes, mulheres que envergonham as outras.  Muitas das vezes dito por mulheres lésbicas de todas as classes sociais e algumas inseridas em religiões petencostais ou afro brasileiras. A religião continua sendo ainda um grane entrave na vida dessas mulheres.

Outro impacto na investida desse projeto foi à rejeição das mulheres de classes altas e médias, executivas, acadêmicas (algumas), as quais não quiseram dar seus depoimentos ou responder a pergunta que é a chave mestra desse documentário, que abre todas as outras caixinhas de surpresas e de Pandora:

 

“O que é ser lésbica no Brasil?”

 

Eram unânimes em falar que a vida particular delas, entre quatro paredes, permanecia lá e que não se sentiam confortáveis em responder essa pergunta, pois não se encaixavam nesta categoria.

 

Pessoas que rejeitam qualquer tipo de manifestação pública homoafetiva, não participam da com, unidade LGBT, evitam locais públicos lésbicos ou gays, não levantam bandeiras ou estandartes para a luta da comunidade.

 

Porém de outro lado, centenas de mulheres anônimas ou não, ativistas, mães, filhas, avós, mulheres sambadas, vividas, abriram seus corações e se prontificaram a falar, a contar suas histórias de vidas, seus encontros e desencontros. Muitos com finais felizes e outros nem tantos.

 

Foi neste momento, entre algumas dificuldades e muitas ajudas, fui descobrindo outro Brasil, país esse que todos nós na maioria das vezes pensamos que conhecemos ou já vimos de tudo, acabamos nos deparando com situações diferentes, bizarras, tristes, alegres e emocionantes. Situações às vezes tão comuns que acabamos não acreditando que a mulher lésbica esteja inserida, pois as normatividades do universo heterossexual as encobrem por completo.

 

As mulheres que se prontificaram como “voluntárias”; palavra e atitude rara nos dias de hoje, contaram-me histórias do dia a dia de suas vidas e de vidas de suas parceiras e colegas.

 

Mulheres que tinham a coragem de pronunciar a palavra lésbica e expor sua homoafetividade por outra mulher em público ou no privado.

 

Muitas se sentiram orgulhosas de serem lésbicas. Mas a maioria foi muito relutante em assumir a possibilidade de saírem dos armários, pois o medo e a vergonha são imperativas na s vidas dessas cidadãs.

 

Momentos positivos, que me deram segurança, foram os encontros com mulheres brasileiras lésbicas de ponta, ativistas, pessoas que me receberam com carinho, respeito e me permitiram sentar em suas mesas e juntos dissecarmos oque era esse universo de tantas curvas e avenidas, ruelas e becos sombrios, mas com possibilidades de muita luz no final de cada espaço desse.

 

Agradecimentos especiais ao II Fortalecendo, organizado pelo Movimento Dellas, ao Felipa de Souza por sempre me receberem em sua casa, ao Coletivo de Lésbicas Elizabeth Calvet, ao Arco Iris e ao Laço e Acasos, L.A.M.C.E a todas as mulheres Nordestinas, Nortistas, Sulistas e do Centro Oeste que abriram o coração e a mente para falarem comigo.

 

Este é um campo ainda a ser desvendado pela sociedade homofóbica, lesbofóbica, racista, patriarcalista, machista e tantos outros nomes que possamos chamar e enumerar.

 

Com os parceiros de diferentes segmentos que foram adicionados nesta empreitada consegui criar uma trajetória que se inicia como a primeira parte dessa filme.

 

Parcerias e apoio de entidades religiosas, públicas, grupos LGBT e ONGs AIDS. Os parceiros são muitos e poderiam ser muito mais se a intolerância de alguns não sobressaíssem nos seus egos auto-centrados. Mas não é o momento de pensar no lado ruim e sim nas coisas boas que esse filme pode trazer para a sociedade e a comunidade de mulheres homoafetivas.

 

Um dos grandes presentes desse filme também foram à contribuição, a ajuda de artistas e amigos fantásticos tais quais:

 

Vicky Walker criando a trilha sonora do filme com a sua musica tribal “Eu Sou o Avesso” com a direção musical de Delfim Moreira Produção Artísticas e com a produção musical de Joe S, sound Desgner. Essa trilha entrou no filme como uma luva de pelica, encaixou, deu resultado, trouxe a mensagem, criou ritmo e alegria, em fim deixa uma marca muito positiva para o filme.

 

As minhas amigas, parceiras e artistas Beatriz Salgueiro da 4 Mãos, no Brasil e Marite Jones JNY Media.com, em New York, juntos trabalhamos as artes das propagandas do filme via a internet, em continentes diferentes, com possibilidades de acertos e erros enormes.

 

 Cláudio Nascimento, ele me propôs a mandar um projeto do filme para a SEASDH – Secretária de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do governo do Estado do Rio de Janeiro, pois a secretária teria interesse também de fazer parte dessa empreitada com o coletivo lésbico brasileiro.

 

Foram mais de 60 horas de edição na primeira parte desse filme e a editora Etiene Petrauskas da Montage Vídeos, editou comigo todas as cenas desse filme. Tivemos que fazer milagres nos 45 minutos que o filme foi permitido ser finalizado, pois os depoimentos eram e são ricos demais. Cortes doloridos, jogo do dadinho para ver quem fica ou quem sai. Muito estresse, pois horas e horas de entrevistas resumidas em minutos, em seqüências, em tomadas de cenas.

 

Compartilhamos muitas horas de edição, pesquisa, buscas intermináveis no google, livros, biblioteca nacional, o CEDOC da ABIA, a biblioteca de Columbia University em NY e infinitas viagens a livrarias, sebos, telefonemas e-mails para amigas compartilhando informações, pedindo ajuda, pesquisadores para que juntos pudéssemos ter uma margem menor de erros e um leque maior acertos.

 

Richard Parker sempre presente, nos orientando em pequenos detalhes que podiam melhorar a idéia central do filme. Como sempre o chamei, “o homem com outro olhar”, uma pessoa que ao adicionar idéias à contribuição seria melhor. O respeito pelas histórias de vida de mulher, senhora, mãe, avó, irmã e jovem.

 

“Nesta parte do filme haveria espaços entre as mulheres protagonistas com uma parte do filme que eu intitulei “Outros Olhares”, mas ao ver as cenas Richard Parker calmamente falou:” – Para que outras pessoas estão interferindo nas falas dessas mulheres que são exemplo de dignidade e coragem. Faça outro filme com eles, mas neste deixa só elas falarem... olha a riqueza das falas, do olhar, do gesticular... faça outro filme, pois esse já está pronto... elas são as estrelas... não precisa dividir o palco com mais ninguém...”

 

O espaço de re-descrição da mulher lésbica está sendo aberto.

 

Hoje em dia me deparado com frases em cartazes nas paradas, nas manifestações que no futuro farão uma grande diferença no universo lésbico brasileiro.

 

“Sem Orgulho não há visibilidade.

Ser chamada de lésbica é orgulho.

Tem Mulher na Parada.

Pela abolição da violência contra a mulher homoafetiva.

Lesbofobia, aqui não!

Racismo, to fora.

“Mãe de filha lésbica”

 

O filme aborda esses tópicos todos e deixa que a mulher possa se manifestar por ela mesma.

 

Com a duração de 45 minutos nesta primeira parte dessa trilogia, “Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica” começa a trazer para sociedade brasileira, não só para a comunidade lésbica, mas para uma sociedade mais ampla, o conhecimento e a vida de milhares de mulheres que necessitam enfrentar os extremismos do Brasil com muita garra e coragem.

 

Muitas pessoas estão envolvidas nesta produção, desde acadêmicos, médicos, religiosos, transgenêros, heterossexuais, homossexuais, pessoas que conseguiram trampor as barreiras da intolerância e hastearem a bandeira da solidariedade, acreditando que há espaço neste planeta para todos.

 

Ai! Como estou tão sozinho

Muitas mulheres se sentem sozinhas
Ai! Como tudo é tão triste

Muitas se sentem tristes
Ai! A beleza que existe

Muitas acreditam na beleza do mundo ainda
A beleza que não é só minha

Uma beleza a ser compartilhada com outra/s
E também passa sozinha
Que não devem passar suas vidas sozinhas
Ai! Se ela soubesse que quando ela passa

Diga-a que quando ela passa a sua vida se transforma
O mundo inteirinho se enche de graça

Fica cheio de graça
E fica mais lindo por causa do amor
Que juntas podem transformar o mundo
Só por causa do amor...

 

A construção do filme só está começando. Sua trajetória é longa e há muitas histórias ainda a serem contadas.

 
 
APOIO
Produção: Prazeres e Paixoes SRABIA
Brasil 2009

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para maiores informações enviar e-mail:
vagner.de.almeida@gmail.com