Entrevistas: Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica


 

Documentário traz depoimentos de lésbicas brasileiras

Por Lufe Steffen
Publicado em 7/10/2010

“Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica”. Com esse título, o diretor Vagner de Almeida realizou um documentário em longa-metragem que monta um panorama da atual situação das lésbicas no país.

O filme está sendo exibido em festivais, universidades, congressos, fóruns e todos os lugares onde é requisitado. Fez parte das exibições de filmes no “24 Horas Contra a Homobia” em Brasília. 

“O filme foi criado para isto mesmo, trazer um universo muito desconhecido para tantos dentro de uma sociedade tão homofóbica e religiosa”, afirma Vagner, que é coordenador do Projeto Juventude e Diversidade Sexual na ABIA - Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS no Rio de Janeiro.

Fale um pouco sobre o filme. Por quê você decidiu realizar um documentário sobre lésbicas?
Primeiro por se tratar de um tema que temos a obrigação de tê-lo na pauta de Políticas Públicas. Mas, na verdade, a decisão já havia sido feita há muito tempo, só estava esperando a hora para iniciá-lo e ter a certeza que iria finalizá-lo como queria. Afinal, o tema é delicado, mesmo que esteja hoje em dia na moda se falar mais nele, ainda continua recheado de tabus e muita polêmica.

Este primeiro filme sobre mulheres lésbicas é a primeira parte de uma trilogia que pretendo realizar. Esse universo feminino é muito amplo e ninguém conseguirá desvendar todas essas cidadãs em um único filme, livro ou escultura, fotografia, música…

Quanto tempo levou a captação do material? Em quais cidades o documentário foi gravado?

Esse material venho arquivando por muitos anos. Para essa parte do filme foram mais de 500 mulheres entrevistadas, muitas acompanhadas em seu cotidiano, quando era permitido por elas. 
Outras me deram todo suporte que necessitava, criando assim uma rede de mulheres, às quais eu teria como chegar, perguntar sem constrangimento para ambos: “O que é ser mulher e lésbica no Brasil?”, e as respostas foram as mais diferentes possíveis. Consegui garimpar algumas pérolas muito valiosas.
Consegui gravar de Norte a Sul, conhecer e continuar a conhecer mulheres lésbicas de todo Brasil, de todos os tipos, de todas as classes sociais. 
 


Você acredita que as lésbicas sofrem mais preconceito do que os gays masculinos?
Certamente! Olhando e vendo o que é ser mulher no Brasil e no mundo, piorando quando saem da normatividade da heterossexualidade, ser mãe, esposa e o esteio da casa. Sem direito de decidir pelo seu próprio corpo, aí certamente a mulher lésbica sofre muito mais do que o gay masculino. Mas medir sofrimento é algo meio surreal, pois cada um sabe a sua dor e qual é a intensidade da mesma. Quando observamos os crimes de ódio cometidos contra a mulher lésbica, os requintes e resquícios de violências são aterrorizadores. Isto parte desde as agressões verbais até as mais cruéis fisicamente falando.

Durante a pesquisa, não houve uma mulher lésbica assumida, que não tivesse sofrido uma agressão ou dezenas delas na vida. Todas as formas de agressões foram mencionadas. Desde ao tapa na cara para tomar vergonha, passando por estupro e morte. Uma estatística alarmante. Partindo do núcleo familiar, entrando nas comunidades onde moram e nos locais de anonimato, a mulher aparentemente lésbica é uma vítima fácil dos homofóbicos e extremistas, dos machos e dos moralistas. Quando vamos mais adiante e vemos o próprio movimento LGBT esbarrando-se nos limites dos preconceitos, aí podemos concluir que, se a mulher lésbica não se impor, ela é completamente sufocada. Por isso, ela paga um preço muito e, acima de tudo, ainda tem que suportar paredes de segregação, até mesmo dentro do próprio movimento LGBT.


Na sua opinião, ainda existe a idéia de que as lésbicas com aparência feminina são mais aceitas do que as masculinizadas?
Sim. Tanto é que muitas mulheres que deram entrevista impuseram condições para falarem e não me permitiram fotografá-las ou filmá-las, pois até para pronunciar a palavra “lésbica” elas tiveram dificuldades de assimilar e assumir como sendo uma mulher lésbica. As mais fortes, as chamadas por muitos de caminhoneiras, coturnos, sapatões, cuecão, maria machão, encontram também uma resistência de convívio social com outras lésbicas menos fortes, com menos aparências de homens.

O interessante que percebi durante todo esse processo é que a sociedade em todos os setores não está preparada para nada, principalmente para a diversidade sexual. Por quê se aceita a lésbica sapatilha, aquela feminina, dengosa, fogosa, e há a dificuldade de inserir no mesmo espaço social a lésbica truncuda, machuda, fortona? Impressionante a disparidade do olhar da sociedade perversa, classista, não-estruturada e se achando muito avant-garde, muito moderna, mas no fundo é extremamente arcaica, lenta em perceber mudanças do século.

Outro fato importante, observado durante as filmagens, foi a questão de gerações. As mais jovens desdenhando as mais idosas. Muitas mulheres idosas, nunca se assumiram como lésbicas, mesmo morando com suas parceiras fixas. Mulheres de classe média alta foram as que menos quiseram dar entrevistas, serem filmadas, falar desse universo.

Famosas da mídia relatam que são conhecidas na mídia como lésbicas, mas não querem fazer parte da comunidade LGBT e nem falariam que são publicamente. Algumas visivelmente truculentas, mas não se assumiriam publicamente, mesmo toda sociedade sabendo que são mulheres lésbicas. Ainda carregam o estigma que, ao se declararem lésbicas, seu público pode discriminá-las ou perder espaço na mídia.

Comentários:

Jose Jairo Irineu no dia 16/10/2010: Bom dia. Sou homossexual e ainda tem esse tipo de preconceito, não só com as mulheres lésbicas assim como os homens. Pois me assumi com 10 anos de idade, claro que tem um preço(a dor do preconceito) mas até hoje estou vivo e superei. Esta lindo o trabalho de Vagner.

Rosana Pitanga no dia 16/10/2010 às 13:54 disse: A liberdade de expressão é uma conquista dos movimentos LGBTs no Brasil, claro que ainda tem mulheres assumidas e as não-assumidas porém é uma questão de tempo para que ca mulher lésbica tenha certeza da sua sexualidade, e não parecer somente curiosidade e ficar na dúvida.

Silvia Furtado no dia 21/10/2010 às 16:10 disse: O que deveria ser motivo de orgulho, a rebeldia, assumir a sua lesbiendade, não submeter- se ao machismos cultural da própria família, acaba se perdendo com a falta de consciência política. Infelizmente ainda temos que debater mais sobre a nossa condição de ser mulher e a opressão que incide sobre o feminino. Parabéns pelo trabalho, retirar da invisibilidade uma realidade, abrindo o debate fortalece o movimento de lésbicas, possibilitando a reflexão da diversidade humana na sociedade. Grande abraço, Silvia Furtado

 

 


 

Vicky Walker

Vagner de Almeida entrevista Vicky Walker

 Entrevista concedida no dia 16 de setembro 2009,
em Nova Iorque com a atriz e DJ Vicky Walker on line.

Vicky Walker & Vagner de Almeida

 

Vagner - Quem é Vicky Walker?

Vicky - Um espelho. Deixo que cada um veja sua própria imagem refletida em mim.


Vagner - Quem é você no filme "Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica"?

Vicky - Uma peça desse quebra - cabeças. Uma integrante de uma equipe coesa e profissional que se empenham para um produto final, que é a obra em si e seu entendimento pelo público.

Vagner - Trabalhar com um tema das lésbicas foi difícil, ou os enfrentamentos são os mesmos fazendo a mesma coisa com outros temas?

Vicky - Fazer com amor, carinho, dedicação e profissionalismo não é fácil. Exige do profissional e é assim que tem que ser. Faço com muito prazer. Para mim só existe o “Ser Humano”, trabalho para atingir o coração das pessoas e isso independe de classe social ou orientação sexual.

Vagner - Quando lhe pedi para fazer uma musica tribal para a trilha sonora do filme, o que você inicialmente pensou?

Vicky - Fiquei muito feliz! É sempre um prazer ser convidada para integrar uma equipe. Pensei de imediato em usar uma das muitas músicas que fiz e tenho nesse trajeto de carreira artística; Depois pensei em realmente mixar algo com trechos de Ana Carolina, Maria Bethânia, Vander Lee... Mas não gostei do resultado. Então voltei à minha pasta de criações com frases que desenvolvi em 1994 com uma grande poetisa amiga: Madu Macedo.

Vagner - Quando soube que seria uma empreitada para falar de mulheres lésbicas, assustou-se ou recebeu como um desafio, como outro qualquer?

Vicky - Fiquei muito feliz. Sou uma artista que trabalha com, e para o público e sem peso de ser rico ou pobre homo ou hétero, branco ou negro... Todo trabalho é um desafio, todo trabalho é o mais importante.

Vagner - Sua musica tem tudo para explodir nas pistas de dança do mundo inteiro, mas o que você pensou em criá-la para esse filme com esse tema?

Delfim & Vicky WalkerVicky - Essa música, “Eu sou o Avesso”, retrata o ser humano. Ninguém é 100% de tudo. Foi desenvolvida dentro dos padrões internacionais de músicas para pistas de dança. Tive a direção musical do Maestro Delfim Moreira e a parceria do produtor Joe S. Nela, além do BPM, compassos perfeitos e gráfico musical,  possui ainda abertura para os Tops DJs fazerem um grande trabalho em suas apresentações pelo mundo. Fiquei muito feliz que ela tenha se encaixado no seu filme que também fala do ser humano.

Vagner - Trabalhando por meses nestas musica, enfrentando os desafios de estúdios, o meu estresse em ter a musica pronta, como foi tudo isto para você?

Vicky - Foi prazeroso! Tenho experiência para dosar tudo. O momento de criação é o mais importante. Gosto de me isolar, preciso disso... É um processo que requer que eu ouça muitos estilos musicais, faça testes, ouça, ouça e ouça... Só assim pode ter diminuído a chance de erro. Existem fases numa criação que não deixo de cumprir... Como pré-produção, criação, produção, pós produção, divulgação. São fases distintas e ao mesmo tempo interligadas. Alguma requer equipe, conversação e outras requerem o artista e o silêncio; A conexão com o divino e inspirador.

Vagner - Você vem me acompanhando nesta empreitada há bastante tempo e qual é a diferença do documentário "Basta Um Dia" (2007), produzido pela ABIA e dirigido por mim, onde você aparece brilhantemente interpretando "Basta Um Dia" - de Chico B. de Holanda, na frente das câmeras e agora em "Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica", atrás das câmeras?

Vicky - Tenho 25 anos de experiência com a publicidade, TV e Cinema. Sou uma eterna aprendiz, mas aprendi com mestres como Tizuka Yamazaki, Jacyra Lucas, Carlos Fontoura, Tininha Araújo, Sérgio Goldemberg, Denise Duarte, Marília Pêra, Bibi Ferreira e outros queridos como você, que ficar frente às câmeras tem a mesma responsabilidade de estar atrás delas. Na frente temos nossa imagem, mas não estamos sós... Existe uma equipe que nos dá todo o suporte e confiança para nosso trabalho e exposição. Quando estamos atrás das câmeras temos nosso nome e nossa credibilidade... Temos a responsabilidade de fazer o nosso melhor para, quem esteja frente às câmeras possa ter segurança e fazer o seu melhor. Temos o objetivo de falar ao coração dos telespectadores. Cada pessoa numa equipe de imagem tem a mesma importância... Só uma equipe coesa e profissional alcançará o objetivo de ser entendida. Em ambos os filmes você fala do ser humano e eu amo isso.


Vagner
- Uma pergunta bem sutil e complicada de responder. Qual a importância desse filme “Sou Mulher, Sou Brasileira, Sou Lésbica” para a sociedade brasileira?

Vicky - É sempre positivo o esclarecimento e o conhecimento, principalmente quando se trata de seres humanos que fazem parte do nosso dia a dia. No fundo fica a certeza de que somos iguais quando se trata de sonhos, lutas, alegrias, decepções, desilusões... . Esse documentário é uma arte e como todo arte requer a sensibilidade e a alma de quem cria e de quem a vê.

Vagner -  Como foi participar dessa produção?

Vicky - Muito prazeroso! Só trabalho com quem confio. Gosto de trabalhar com profissionais Competentes e maravilhosos como você e Etiene Petrauskas . É sempre um grande aprendizado e prazeroso.

Vagner -   O que é ser lésbica no Brasil?

Vicky - Eu não gosto de rótulos. Penso que enquanto houver divisões de grupos humanos estaremos longe da unificação. Não podemos criar grupos baseados no que se faz sexualmente dentro de um quarto.

O termo lésbica originalmente referia-se somente às habitantes da ilha de Lesbos, na Grécia entre os séculos VI e VII a.C. Morava naquela ilha a poetisa Safo admirada por seus poemas sobre o amor e beleza, em sua maioria dirigidos às mulheres. Por essa razão, o relacionamento sexual entre mulheres passou a ser conhecido como lesbianidade ou safismo.

Ser mulher no Brasil já é difícil. Mulheres ainda trabalham mais que os homens, e ganham menos. Mulheres ainda são obrigadas a levar as cruzes das famílias nas costas...( problemas de maridos e filhos). Agora fico pensando se em uma sociedade machista uma mulher é apontada como lésbica...

O que muda em minha vida se a minha vizinha faz sexo com uma mulher ou com um homem? Esse filme é muito importante para percebermos o ser humano com toda sua grandeza e sua mediocridade e hipocrisia.

 

Vicky Walker DJMúsica: "Eu Sou O Avesso" (Vicky Walker e Madu Macedo)

Interpretação: Vicky Walker

Direção Musical: Delfim Moreira Produções Artísticas

Produção Musical: Joe S. (Sound Designer)

www.vickywalker.tv

 


 

 
 


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vagner.de.almeida@gmail.com