Textos e Entrevistas Sobre Sexualidade




No carrossel da pedofilia

Jornal O Estado de São Paulo - 7 de setembro de 2008.

Mônica Manir

A Operação Carrossel teve duas rodadas até agora. Na primeira, deflagrada em dezembro de 2007, a Polícia Federal cumpriu 102 mandados de busca e apreensão, e três pessoas foram presas, acusadas de pedofilia. Na segunda, desencadeada em parceria com a CPI da Pedofilia, a PF juntou farta quantidade de pornografia infantil em 113 en. dereços, de onde o material partia via internet. E mais quatro pessoas, pegas em flagrante, foram detidas. Todo esse arquivo de imagens com crianças e adolescentes entre 2 e 17 anos está sendo compartilhado com pelo menos 70 países, onde milhares de pedófilos foram rastreados a partir das investigações feitas no Brasil desde a primeira Carrossel. (mais)


 

Império dos sentidos

O antropólogo americano Richard Parker diz que o erotismo
grudou na cultura brasileira e que o major prazer
nacional consiste em transgredir regras.
Publicado em 9/10/1991  (mais)

 


Entrevista com Richard Parker: 20 anos de ABIA

Como você traçaria um panorama da evolução da epidemia no Brasil nestes 20 anos?

Em termos da epidemiologia da infecção pelo HIV, é claro que temos a massificação da epidemia e a sua expansão pelo território nacional – a sua pauperização, a sua feminilização, a sua heterossexualização, a sua juvenilização e a sua interiorização são os processos epidemiológicos mais claros.  Em termos das respostas dadas pela sociedade brasileira frente a epidemia, podemos ver algumas fases distintas:  a resposta brasileira frente a AIDS já passou de um período inicial de negação total, no começo dos anos 80, para um período de mobilização inicial, mais ou menos de 85 até 90, um retrocesso de alguns anos durante o governo Collor, do 90 até 92, e pelo menos duas fase de enfrentamento mais complexo nos anos 90, de 92 até 96, quando um Programa Nacional de AIDS maduro e competente é estruturado, e de 96 para cá, com a implementação deste programa, a sua descentralização (pelo menos parcial), e a construção da sua sustentabilidade.  Hoje em dia, enfrentamos uma epidemia madura, mas com uma resposta também madura e de várias formas bem sucedida.  A resposta brasileira frente à epidemia de AIDS é realmente uma das mais bem sucedidas de qualquer país, seja do mundo desenvolvido ou do mundo em desenvolvimento, e foi uma resposta coletiva construída por todos os setores da sociedade.  Mas nunca podemos esquecer que justamente como a epidemia é escorregadia, se transformando para achar novos caminhos de infecção, a nossa resposta – e o nosso suposto sucesso – também é frágil e constantemente ameaçada.  De sustentar os sucessos dos últimos anos requer uma vigilância política constante, porque nada garante a sua extensão e aprofundamento a não ser o nosso próprio esforço e a nossa mobilização constante.

Como você analisa o trabalho da ABIA nesses 20 anos em termos de estratégias e readaptação de objetivos?

Desde a sua fundação em 1986, a ABIA tem tido um papel fundamental tanto no analise das tendências epidemiológicas e sociais da epidemia quanto na mobilização política frente a ela.  Lembro muito bem, em 1988, na época quando comecei a colaborar com a ABIA, li um texto escrito pelo Herbert Daniel, chamado “A cara da AIDS no Brasil” – foi um texto escrito para o quarto congresso internacional da AIDS em Estocolmo.  Eu me lembro até hoje o argumento básico do texto – que a cara da AIDS no Brasil é a cara do País – uma cara feito de todas as cores, homens e mulheres, pessoas de todas as sexualidades, e acima de tudo de pessoas pobres dentro de uma sociedade aonde a grande maioria do povo ainda vive dentro de condições de pobreza.  Eu me lembro muito bem do texto, porque nesta época, a imagem que tinha da epidemia, nos dados epidemiológicos, na mídia, nos discursos do Ministério da Saúde, era bem diferente – a AIDS ainda era visto como uma questão masculina, acima de tudo dos homossexuais masculinos e eventualmente de outros grupos marginalizados como os usuários de drogas, os chamados grupos de risco.  Ninguém ainda tinha encarado a fato, hoje óbvio para todos nós, que o caminho da epidemia no Brasil seria bem diferente do que a imagem que tinha naquela época – que ia caminhar, como o Daniel argumentou, pelas rachaduras da estrutura social brasileira, e que teria no final das contas, a cara do brasileiro, afetando tanto o negro quanto o branco, tanto a mulher quanto o homem, tanto o heterossexual quanto o homossexual, e tanto o pobre quanto o rico.  O papel da ABIA, desempenhado maravilhosamente bem neste texto do Daniel, sempre foi de andar na frente no seu analise da epidemia – de expor as questões ainda não enfrentadas adequadamente pelos outros setores, de levantar as questões complexas que muitos prefeririam evitar enfrentar, e de lançar possíveis respostas que abrem novos caminho para o enfrentamento da epidemia.  De alguma forma ou outra, é isto que a ABIA vem fazendo ao longo destas décadas.  É o papel que a instituição desempenho – ao mesmo tempo vanguarda e retaguarda, fazendo analises precisas e criticas e ao mesmo tempo apoiando a luta maior para a mobilização da sociedade brasileira frente a epidemia.  

Qual a importância do trabalho desenvolvido pelas ONGs brasileiras no combate à AIDS?

As ONGs sempre caminharam na frente da luta contra a AIDS.  É fácil esquecer disto até por causa da relativa competência dos programas governamentais nos últimos anos.  Mas olhando a história da epidemia no Brasil – como nos outros países – fica muito claro que a ação governamental só aconteceu, pelo menos no começo, na marra.  Ninguém deu nada de graça – a mobilização brasileira frente à epidemia aconteceu porque foi exigido pela sociedade civil, pelos ativistas, pelas pessoas vivendo com HIV e AIDS.  As ONGs tiveram um papel fundamental no começo e ao longo do caminho, como continuam tendo um papel fundamental hoje em dia.  A pressão política exercitada pelas ONGs tem sido da maior importância.  Mas a contribuição delas não termina por aí.  É muito mais amplo.  Além de fazer pressão, as ONGs consigam levantar questões que os governos (municipais e estaduais além do federal) demoram e as vezes temem em levantar.  Pelo menos quando lembram do seu papel histórico e do seu potencial, as ONGs conseguem inovar, conseguem ousar, de uma forma difícil para as máquinas estatais – enfrentando temas fundamentais para o enfrentamento da epidemia (tais como a sexualidade, o direito de todos para tratamento e assistência dignos, e alcançando populações e comunidades marginalizadas e até historicamente ignoradas pelo poder público, e assim por diante) de uma maneira mais direta que qualquer outro setor.  É justamente por isto que as ONGs continuam tendo um papel fundamental independente da competência e a evolução de programas governamentais.

Como você avalia o trabalho governamental nestas duas décadas de epidemia?

Tenho grande respeito pelo trabalho governamental realizado nos últimos anos – de fato, ao longo de mais ou menos a última década.  Mais não foi sempre assim.  Até o ano de 92, as respostas governamentais foram ainda tímidas.  Em alguns Estados e Municípios, como por exemplo São Paulo e Santos, foram sendo criadas experiências interessantes e importantes, mas também frágeis e precárias – ameaçadas com cada troca de governo – e sem realmente um programa governamental de sucesso no nível federal.  A partir de 92, com a re-estruturação da Coordenação Nacional, o trabalho governamental cresceu enormemente – fundamentado, acima de tudo, em dois fatores:  por um lado, a constituição de 88, uma verdadeira constituição democrática que estruturou um conceito da saúde como direito de toda cidadão, e pelo outro, o aprofundamento de um verdadeiro movimento social frente à AIDS, liderado de uma maneira importante pelas ONGs, mas de fato mais amplo, envolvendo diversos setores da sociedade civil e cobrando ação eficaz do Estado.  Foi isto que sempre foi a luta da ABIA, articulado no primeiro momento pelo Betinho, e re-articulado pela instituição constantemente desde a sua fundação – a ABIA nunca pretendeu substituir o Estado.  Muito pelo contrario, foi criado justamente para cobrar do Estado o que é de direito de todos os cidadãos:  o direito de ser tratado com dignidade, o direito de ser cuidado e acolhido, em fim, o direito da saúde.  É o papel do Estado de fornecer os serviços que garantam os direitos de todos os cidadãos – mas é o papel do cidadão de exigir estes direitos, pois sem isto não serão fornecidos simplesmente por bondade paternalista.

Quais os possíveis desafios que ainda surgirão no combate à epidemia e como a ABIA está se preparando para enfrentá-los?

Os desafios certamente serão muitos e a ABIA não está preparada a enfrentar nenhum deles sozinhos.  Mas acredito que coletivamente, nós na ABIA juntos com outras ONGs e com outros setores preocupados com o enfrentamento da epidemia, temos boas possibilidades de avançar.  Acima de tudo, temos que evitar a complacência – temos que lembrar que a batalha nunca será vencida enquanto a infecção pelo HIV continua a existir.  Temos que evitar também a burocratização da luta frente à epidemia – e a burocratização das ONGs como pouco mais que executores de ações governamentais ou quase-governamentais.  Temos que lembrar que a sustentabilidade da resposta brasileira frente à AIDS depende acima de tudo da política, e da pressão constante da sociedade civil.  Temos que lembrar que as ações técnicas, seja da prevenção ou da assistência e do tratamento, dependem dos direitos – do aprofundamento constante da cidadania e da democracia.  Vivemos, trabalhamos e lutamos em uma época histórica e em um contexto global em que o respeito pelos direitos, pela cidadania e pela democracia é ameaçado diariamente, tanto nos centros de poder global político e financeiro, quanto nos buracos negros do era informatizado, aonde as pessoas e as comunidades marginalizadas e oprimidas são cada vez mais desamparadas.  Na ABIA, estamos nos preparando para enfrentar os desafios que ainda surgirão no combate contra à epidemia acima de tudo lembrando que este combate não pode ser divorciada da luta maior para um vida digna dentro de um mundo democrático.  Neste sentido, sabemos que estamos caminhando contra todas as tendências da história recente no mundo globalizado.  Mas como temos certeza absoluta que o caminho é por aí, não temos outra opção a não ser continuar na marcha...

 


 

 

 

 

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