DEZ ANOS DO PROJETO HSH NA ABIA
1993 - 2003

Vagner de Almeida

O Projeto HSH - Homens que Fazem Sexo com Homens - iniciado em 1993 e desenvolvido pela ABIA em parceria com o Grupo Pela VIDDA-Rio de Janeiro e o Pela VIDDA-São Paulo, foi o primeiro projeto de grande porte de prevenção para homossexuais no Brasil. Na sua primeira fase, de 1993 até 1997, foi desenvolvido pelas três organizações nas duas maiores cidades do país.

Sob a direção de Richard Parker e Veriano Terto Jr., o Projeto HSH (também conhecido como o Projeto Homossexualidades) desenvolveu uma extensa agenda de atividades dirigidas aos homens que fazem sexo com homens entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo um mapeamento social de ambas as cidades e as publicações dos “Guias Para Gays”.

Apesar da evolução de longo tempo, sofrendo várias mudanças (principalmente apartir de 1998, quando as atividades ficaram restritas para a cidade do Rio de Janeiro), o Projeto HSH permanece em longo prazo, completando agora mais de 10 anos de existência e ainda extremamente atuante. Ao longo desses 10 anos evoluiu, mudou a sua geografia de atuação e atualizou-se conforme o caminhar e a evolução da epidemia.

O projeto começou no Centro na sede da ABIA na Rua Sete de Setembro de 1993, marcou presença na zona sul em praias, discos, bares, saunas e parques nos anos de 1994 e 1995 e atravessou o túnel da grande Rio de Janeiro em direção aos subúrbios e áreas da Baixada Fluminense, lugares os quais foram percebidos que estavam vulneráveis e poucos atendidos com intervenções mais direcionadas para a população HSH.

Historicamente o projeto começou atingindo uma população mais adulta, incluindo idosos, jovens travestis, travestis, gays soro-positivos, negativos, interrogativos e indecisos. Foi uma época muito marcada por pessoas interrogativas e completamente apavoradas em serem testadas. Deve ser lembrado que em 1993 muitas pessoas já convivia com o vírus sem ter o conhecimento de sua existência. O medo gerava pavor e conseqüentemente a omissão do teste. Poucos eram na época que se revelavam positivos publicamente na oficina. Outro marco de grande respeito por todos aqueles que diretamente e indiretamente contribuíram para o entendimento da epidemia. Enquanto em outros continentes em 1993 a epidemia tomava novos rumos, ainda dentro das oficinas do projeto (a Oficina de Teatro Expressionista, a Oficina de Sexo Seguro, coordenado por Vagner de Almeida, e o Espaço Cultural das Quintas-Feiras, coordenado por Edgar Hamann, e outros mais na sede da ABIA os participantes estavam sobre o impacto da morte. Foi neste momento em que muitos participantes tornaram-se ativistas e se engajaram na luta contra AIDS.

Os homens brasileiros continuavam a ser infectar pelo HIV, via contato com outros homens e pouquíssimos eram os programas de prevenção ao HIV/AIDS dirigidos de maneira séria e sistemática aos problemas específicos que o HIV/AIDS apresentavam nas vidas da população HSH.

As Oficinas de Teatro Expressionista, Sexualidade e AIDS na ABIA abria um leque de questionamentos para que cada um participante pudesse expor suas necessidades. Através de técnicas teatrais foi possível trazer de dentro para fora muitos interrogações dos participantes e com isto ajudar em grupo muitas pessoas encontrarem respostas para tantas dúvidas, tanto sobre o HIV, discriminação, estigma, prevenção e também sobre sua sexualidade, desejos e medos como HSH. A escolha do Teatro Expressionista foi um meio de explorar a temática relacionada à AIDS para proporcionar um fórum que ultrapassasse a simples informação e desse a oportunidade de explorar dimensões emocionais e psicológicas de conflitos e tensões apresentadas pelos próprios HSH e a epidemia. Trabalhos corporais e a pantomima, a dramatização da negociação e interação sexual e a discussão coletiva de questões tais como identidade sexual, desejo, prazer, o impacto do HIV e AIDS e a experiência vivida do estigma e a discriminação pelos participantes na sociedade brasileira.

Historicamente é interessante registrar frases que marcaram e foram usadas constantemente nas oficinas tais quais “Aqui é possível se falar verdades e mentiras”, “Na vida necessitamos de classe e estilo”, “Aprenda a conviver com as diferenças”, “Você não é o primeiro e não será o último”. Todas essas frases eram contextualizadas perante a atitude e o comportamento dos participantes.

Os 10 anos do Projeto HSH deixam registrados nomes que hoje se encontram na mídia e na luta contra o HIV/AIDS. Participantes da oficina como Wolpy Jones atualmente conhecida na mídia como Lacraia, Hannah Suzart a qual desde a sua primeira visita a ABIA nunca mais deixou de ser uma ativista em sua vida. E tantas outras pessoas que não fazem mais parte desse sistema.

Os resultados foram alcançados através da evolução dos primeiros materiais educativos, os quais focalizavam e erotizavam o sexo seguro. Esses mesmos materiais passaram a priorizar ativismos e militância. Vários cartazes como “Não Importa Com Quem”, polêmico, mas extremamente revolucionário para a história da epidemia do HIV trazia um homem nu com o pênis duro usando uma camisinha. “Amor a Três”, outro panfleto que remexia com o imaginário erótico de muitos. Cartazes como “Silêncio = Morte” e “Ação =Vida” abria espaço para repensar e discutir ativismos e militância com os participantes das oficinas HSH, os quais através das oficinas passam a rever a epidemia de uma outra forma. Isto não queria dizer que o estigma e a discriminação tenham desaparecido do universo de muitos participantes. Cada pessoa tinha seu ponto de vista e tinham também a liberdade total de expressá-lo da forma que desejasse.

Tantos outros matérias educacionais sobre a AIDS e voltados especificamente para a população HSH foram criados tais quais livretos, livros, boletins, manuais os quais alguns se encontram esgotados, mas com cópias para consultas no CEDOC – Centro de Documentações da ABIA.

Através desses materiais específicos para a população HSH, muitos participantes voluntariamente se dispuseram a distribuí-los pela grande Rio de Janeiro em bares, boates, praias, saunas, festas e becos do centro do Rio.

O projeto ficou conhecido através de suas atividades coletivas como festas temáticas, ensaios de teatro, criação de textos, poesias, sessões de expressões corporais expressionistas, debates, filmes, cursos de indumentária, maquiagem e tantas outras incursões neste mundo tão distante da realidade de muitos.

Vídeos foram criados para contar e mostrar cenas desses personagens tão cotidianos do universo HSH. A primeira produção em vídeo do projeto foi “Homens” conta à história de três homens e sua trajetória como homossexuais. Seguido da trilogia da Oficina de TE da peça, livro e vídeo de “Cabaret Prevenção”, marcos importantíssimos dentro da história do projeto. Ambos relatavam em documentário o universo, mesmo que em focos diferentes, o cotidiano e a história dessa população HSH.

“Cabaret Prevenção” continuou sendo uma das partes mais bem sucedidas do Projeto Homossexualidades. No primeiro ano de projeto, as reuniões semanais da Oficina de Teatro Expressionista sobre AIDS e Sexualidade atraíram platéias cada vez maiores de participantes, em grande parte de divulgação boca a boca na comunidade gay e nos meios de comunicação. A freqüência média no primeiro ano era de 25 a 30 homens pulando para a média de 55 a 60 participantes por noite. O sistema de senha foi criado para que s pessoas pudessem ter acesso a Oficina de Teatro Expressionista coordenada por Vagner de Almeida. “Cabaret Prevenção”, produzido pelos integrantes da Oficina de Teatro Expressionista, historicamente foi à última peça de teatro a cerrar as portas do maior teatro do reduto gay dos anos 70 e 80, o Teatro Alaska, o qual foi adquirido pela Igreja Universal.

O Projeto HSH oferecia entre 1993 e 1997 oficinas semanais as quartas-feiras com “Oficina de Teatro Expressionista Sexualidade e AIDS para Homens que fazem Sexo Com Homens”. Vale ressaltar que essa oficina comprovou ser popular, sobretudo entre homens mais jovens e de classes baixas entre a faixa etária de 16 e 25 anos. As quintas-feiras “Espaço Culturais” atraiam mais platéias mais idosas e de classe média. Ambas as oficinas desenvolveram metodologias para atrair o público HSH e na criação do “Manual do Facilitador” publicado pela ABIA é possível observar que tipo de metodologias foi aplicado nestes encontros semanais.

Com o passar do tempo, algumas questões levaram o projeto a tomar novas formas – principalmente para poder responder melhor a juvenização e o empobrecimento da epidemia. Ao longo dos anos, o Projeto HSH da ABIA nunca deixou de se fazer presente e atuar com seus voluntários dentro do sistema da cidade do Rio de Janeiro. Não se esquecendo de mencionar e sua participação em conferências, nacionais e internacionais de AIDS e Direitos Humanos, seminários, fóruns e tantas outras atividades.

A partir do ano 2000, sob a coordenação de Vagner de Almeida e Felipe Rios, surgiram novos rumos também dentro do projeto – surgiu uma nova era no Projeto HSH direcionada principalmente para o público jovem. Outra inovação foi à oficina interdisciplinar, “Terças Transgressivas”, lugar aonde tal qual a Oficina de Teatro Expressionista abre espaço para discutirmos os temas atuais da epidemia incluindo auto-estima, cidadania, violência, direitos humanos e sexuais e HIV/AIDS.

A epidemia tem nova face como também sua nova população. É interessante lembrar que muitos dos nossos participantes cresceram sobre o signo do HIV/AIDS e hoje se encontram com seus 18 a 20 anos de idade. Através dessa juvenização e empobrecimento da epidemia, sentiu-se a necessidade de criar um projeto direcionado totalmente para os jovens HSH, e surge então a “Oficina de Juventude e Diversidade Sexual”. Esta oficina é focalizada mais na linguagem dos jovens sem desistir das questões de direitos e com mensagens produzidas atualmente como “Direitos Sexuais são Direitos Humanos”. Mensagem que trata da violência, direito e sexualidade do indivíduo e cidadão homossexual.

O Projeto HSH sempre prioriza ativismos com produção cultural. Oficinas de arte “pintura, escultura”, cinema, teatro, computação, festas temáticas e tantas outras inovações dentro do projeto para os participantes. Na Oficina de Juventude e Diversidade Cultural foi criado e produzido pela ABIA e os participantes o vídeo documentário “Ritos e Ditos de Jovens Gays”, o qual está participando de vários festivais e amostras nacionais, internacionais gays e lésbicos. Esta produção é uma amostra viva, contemporânea de como o jovem vivencia a sua homossexualidade em tempos de AIDS. O vídeo fala com as palavras dos jovens sobre experiências próprias e acima de tudo, sobre a sua coragem de enfrentar com dignidade e honestidade uma sociedade tantas vezes injusta e opressiva. A finalidade desse vídeo foi trazer questões que pudessem trazer debates entre jovens gays ou não, educadores, pais, assistentes sociais e autoridades. Pessoas que fazem parte da sociedade e que se preocupam com a situação do jovem em uma sociedade contemporânea. Este trabalho foi elaborado pelos participantes das oficinas e criado em 2002.

Foram desenvolvidos também dois livretos, Juventude e Homossexualidade: O que os pais precisam saber e Ritos e Ditos de Jovens Gays, que acompanham essa nova fase do projeto HSH da ABIA. Em 2002 foi entregue o primeiro “Prêmio HSH” da ABIA para entidades principalmente que trabalham com a comunidade HSH nos subúrbios e Baixada Fluminense – uma operação que teve a participação coletiva dos jovens da Oficina Juventude e Diversidade Sexual. O prêmio foi elaborado pelos artistas Elias... e Tony.... também participantes das oficinas. Nos novos materiais gráficos do projeto podemos observar as mudanças gerais que a epidemia e a sociedade tiveram.

Falar em vitórias é muito prematuro, pois a epidemia está ai e a juvenização e a pauperização da epidemia também, sem falar nas novas fronteiras a serem enfrentadas no cotidiano e no futuro. Neste 10 anos mudanças radicais ocorreram e estão ocorrendo.

Políticos e políticas se misturam para definirem o certo e o errado na atitude e o comportamento das pessoas homossexuais.
Templos e falsos profetas prometem a cura da homossexualidade no mesmo momento em que é declarado mundialmente que homossexualidade não é doença.

Cada dia mais jovem se infecta, o empobrecimento acelerado das classes menos favorecidas são alvos escolhidos para a epidemia se estabelecer nos centros dessas imensas diferenças sociais. Estes são fatos concretos que não podemos deixar de observar atentamente como frentes de batalhas constantes. Mas muitas coisas tem permanecido e se fortalecido na luta contra o HIV/AIDS e na democratização da cidadania do HSH tais como o compromisso com o ativismo, com os direitos, com a justiça social e a constante luta contra o estigma e a discriminação. Ainda estamos aqui na luta e vamos continuar, pois nesta batalha não há trégua nem recuo.

Dos 42 milhões de pessoas infectadas no mundo com o HIV, seis milhões precisam com urgência do tratamento antiretroviral devido a gravidade do estado de sua saúde. Este tantos outros motivos fazem com esse tipo de projeto não termine e que se extenda para outras comunidades, principalmente para aquelas aonde a violência estrutural está em altíssimo nível e centenas de jovens HSH e travestis são mortos diariamente.

 




Empoderamento Erótico e Cidadania Sexual para Homens
que Fazem Sexo com Homens e Tribos Afins

por: Richard Parker


Juventude e Homossexualidade:
construindo um modelo de prevenção para homens
que fazem sexo com homens

por: Vagner de Almeida and Ana Barros


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